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Mesas e Cadeiras
we are the heirs to the glimmering world




                                    Lucas, 23 || orkut || last.fm
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-- e aí, gostou do rodízio?
-- é, tava bom. deu pra saciar meu desejo de pizza. mas eles sabem como ser exagerados, hein?
-- ô se sabem. "70 espetaculares sabores!", dizia o folheto. leda miragem. conferi uns 20, no máximo.
-- isso levando em conta que uma parte deles era variante de um sabor já visitado.
-- pois é. banana com canela, banana com gemada, banana com chantilly, banana com chocolate, banana com coração de galinha..
-- o céu é o limite pra criatividade do homem. e, convenhamos, banana vai bem com uma porrada de coisas. omelete de banana é um pratinho simples, porém imperdível.
-- banana, tudo bem. mas batata palha? que diabos foi aquela pizza de batata palha?
-- reaproveitamento de ingredientes ao extremo, provavelmente. quem inventou deve achar estar arrasando, mas eu penso termos testemunhado um indício irrefutável do apocalipse gastronômico.
-- pizza de batata palha só não é pior do que uma hipotética pizza de chuchu.
-- pizza de chuchu é a chave que abre as portas para um mundo de sofrimento eterno. guarde essa idéia pra você, viu?
-- pode deixar. eu tenho uma porção delas. que tal uma pizza de yakisoba?
-- claro, nada mais exótico do que misturar culinárias chinesa e italiana. não tem um espaço pra completar com um chucrutezinho?
-- não tinha pensado nisso! sabia que você tem instinto pra coisa? bora lá fazer uma sociedade, vamos ganhar uma grana preta realizando os sonhos obscuros de gente que deseja comer pizzas hereges.
-- lógico, não perderia por nada no mundo essa chance de destruir uma mesma proporção de sonhos de pessoas que acreditam na existência de alguma coisa no mundo semelhante a ordem.
-- verdade. qualquer pessoa que provasse uma pizza de yakisoba com chucrute sairia do restaurante apostando todas suas fichas no caos.
-- então. olhe bem fundo nos meus olhos e prometa que não vai deixar nenhuma dessas idéias anárquicas sairem de sua cacholinha. nunca.
-- prometo. a pizza de batata palha é o limite. e tenho dito.
-- ótimo! agora que garantimos a paz mundial, precisamos comemorar. que tal um cinema?

*


quando bebia refrigerante fora de casa, ele sempre usava canudinho. não importava onde fosse, o seu fiel escudeiro alongado estava lá, um tubinho de plástico customizado com adesivos, irreconhecíveis de tão antigos. aliás, outra coisa que ele sempre fazia era soprar com toda força para fazer o líquido borbulhar e assim expulsar o gás ali contido -- para ele, a graça toda não era sentir a língua formigar, a garganta coçar; negócio mesmo era saborear o xarope sem ter a experiência sensorial obstruída por detalhes gasosos.

ninguém sabia ao certo de onde tinha vindo tal canudo, mas era certo que possuía um inestimável valor sentimental. rapaz não se desgarrava do objeto plastificado, levando-o sempre consigo dentro de um estojo para óculos que ele forrou com algodão, um estojo avermelhado que ele carrega no bolso externo de sua pasta universitária. ele, a pasta, o canudo: uma trindade mundana, inseparáveis vértices que simbolizam um cotidiano construído com atividades das mais desinteressantes nos últimos dois anos.

daquela lanchonete de esquina, ele bem se recordava enquanto bebericava seu melado de cola, havia visto uma porção de coisas normais acontecerem todos os dias. brigas de trânsito das mais variadas, homens paquerando mulheres, mulheres estapeando homens, casais conversando sobre a educação dos filhos, amigos compartilhando suas vidas sexualmente ativas, pessoas fugindo da chuva e se protegendo da ventania, pessoas que nunca se viram antes cantando abraçadas. um mundo de relações habituais que era parte do que ele era, parte do que ele havia se tornado: um observador, limitado pela própria inoperância. sua vidinha era uma partícula apassivadora, como ele mesmo costumava pensar -- e ria, baixinho, ao constatar que fazia sentido.

ria nervoso, meio que de vergonha também, mas isso ele não constatava. limitava-se a admirar seu dom para brincadeiras envolvendo jargões gramaticais.

essa sucessão de acontecimentos triviais dos quais ele nem fazia parte era o que constituía sua existência. bizarro concluir que você existe em meio a algo de que você não participa ativamente. uma presença adjunta, que talvez adicione atributos ao significado geral das coisas, mas que é oficialmente desnecessária para sua compreensão principal. ele passava distante, ao fundo, efetivo como os rolos de vegetação seca que anunciavam as cenas de duelo nos faroestes de outrora. as pistolas disparavam por todos os lados, mas ele não tinha mãos para atirar também.

só tinha mãos para mexer o canudo em círculos no seu copo, e segurá-lo enquanto sugava as últimas gotas de refrigerante. aquele barulho irritante despertou-o de seus devaneios. mais uma tarde indiferente ia passando. a mesma gente na rua, carregando sacolas de supermercado, levando mochilas nas costas, empurrando malas com carrinhos, conversando sobre o inverno que nunca parece chegar de verdade. depois de lavar seu canudo, depositá-lo no estojo e guardar este na pasta, pagou pelo refrigerante e saiu para sentir uma tarde ainda fresca, com cheiro de oportunidade.

mas esse aroma ele deixou passar com um levantar de ombros. olhou no relógio; quase dezesseis. precisava voltar para a aula, uma vez que o professor não tolerava falta de pontualidade. quem sabe no dia seguinte ele finalmente tomasse coragem para deixar de ser sujeito oculto -- já antecipando que não, que amanhã as coisas teriam o gosto de hoje, que por sua vez mantinham o gosto de ontem, aquele gosto esquisito de algo que não se sabe se está vencido, mas que se prefere acreditar que não, só por comodidade.

* em 18 de julho de 2008, madrugada.


-- me descreve como é, assim? essa sensação?
-- é um desconforto que acalenta. acho que é assim que sinto.
-- isso não tem um valor descritivo muito prático, sabe..
-- queria o quê, que eu usasse camões? até renato russo já fez isso.

ele é bem desse jeito: estranhamente brincalhão, mesmo quando o assunto em questão é uma antítese da comédia. o movimento das pernas, batendo desconcertadas contra o banco, baquetas de um baterista que estuda sem metrônomo; os dedos entrelaçados, indicadores subindo e descendo em círculos, agulhas tecedoras de um suéter feito de linha de oxigênio; a voz delgada e tranquila, de variações harmônicas, uma praticante de yôga que passa de posição a posição com incrível leveza e flexibilidade. cada músculo retesado sugere um esporte diferente, cada suspiro exala uma atividade intelectual variada; é justamente essa hiperatividade congênita que confere um ar humorístico a tudo o que ele faz. impossível observá-lo e não o imaginar fazendo mil coisas ao mesmo tempo.

mas naquele momento havia algo que destoava dessa simpática caricatura que tanto cativava seus amigos. seus olhos, eles não reluziam, sequer giravam incessantemente em busca de um alvo no qual pudessem se assentar. eram dois faróis apagados apontando na estrada banhada pelo anoitecer que era sua face. o opaco que dominava seu semblante desdenhava da energia presente no resto do corpo, e anunciava: no interior desse crânio jaz não um homem, mas uma aparição.

assustava vê-lo naquele estado de torpor. o outro cutucou-o com força usando o cotovelo, buscando despertá-lo:

-- cara, nesse seu estado, eu poderia te colocar ali no calçadão pra trabalhar como estátua viva.
-- é curioso como de vez em quando eu me pego pensando nisso tudo, e por mais estranho que seja, eu sempre reconheço que era o que restava, o que precisava ser feito.
-- mas ainda assim, né?
-- é, exato. que bom que entende. eu não saberia explicar o porquê de eu ainda querer isso.

então sorriu sinuoso, escorregadio como as palavras sem muito lastro que havia acabado de falar. a arte da conversa anafórica era uma cláusula do contrato invisível que regia a amizade dos dois: a transparência verbal não parecia ter lugar numa relação onde contatos telepáticos eram o modo mais freqüente de comunicação. quando conversavam em voz alta, era simplesmente para exercitar as cordas vocais; e, a mando da curiosidade, para ter certeza de que suas vozes não tinham perdido aquele timbre levemente vigoroso que agradava ao telefone.

-- pois é, e eu fico com a impressão de que perderia o entendimento caso você tentasse me explicar.
-- amar alguém pra quem é necessário ficar longe de você implica colaborar na manutenção dessa distância toda. que amor esquisito esse que não reúne, e que parece florescer na repulsão.
-- sacrifícios, né?
-- feitos sem muito pestanejar. que seja feliz -- essa felicidade me arranja um sorriso, que eu tatuo na cara por empréstimo até conseguir um que seja plenamente meu.

e mostrou o presente dessa tal felicidade. fato é que o sorriso parecia mesmo estrangeiro, mas um que estava em processo de adaptação crescente na nova terra. as covinhas nos cantos dos lábios surgiam mais naturais. era embebido na certeza recuperada desse amor inequívoco que ele dissipava a noite e concebia o amanhecer naquela mesma estrada. diariamente, repetidas vezes, ele percorria o mesmo trajeto e chegava à mesma conclusão: não são energéticos, mas sim o amor, que dá asas. então o calor lhe tomava conta das bochechas, e sua aparência fantasmagórica dava lugar ao cara de sempre, o eterno desafiador de definições simples.

-- você ficou bronzeado repentinamente! haha, cê é uma figura.
-- haha, milagres sendo operados, você vê. eu amo, simplesmente. um dia vai dar certo. se o tempo é uma embarcação, aprender a amar pode muito bem ser a chave pra se voltar ao mar.
-- e agora deu pra evocar os poderes mágicos de interpol, é?
-- renato russo que me desculpe, mas sou bem mais o paul banks.

* interpol - 'public pervert'


-- branco-no-branco: é tão bonito, né? você vê como essa porção esbranquiçada do céu realça ainda mais os contornos e a maciez dessa nuvem que tá na frente?
-- eu não vejo assim tão bem..
-- se esforça, presta atanção. esse alto-relevo natural faz a nuvenzinha ficar mais vistosa, mais imponente, até mais rápida. eu garanto que ela, tão pequena assim, não teria o mesmo impacto se vagasse sozinha pelo céu.
-- eu não vejo ainda, mas até entendo o raciocínio. o que não sei é onde você quer exatamente chegar com essa sua exposição sobre os truques visuais da sobreposição de cores.
-- todo mundo gosta de contrastes extremos. passar horas tentando misturar água e óleo. construir paradoxos, comunicar-se usando oxímoros bem sacados. mentir para acentuar o valor da verdade. branco-no-preto.
-- branco-no-preto?
-- é. bem típico, né? e você é igualzinho, não é diferente como você diz ser, não. é bem branco-no-preto.
-- como assim?
-- lembra quando no começo você disse que seria, assim, sincero? sem omitir, sem dramatizar? pois bem, negligência e teatro são bem branco-no-preto.
-- ei, mas eu não sou de fazer isso.
-- ah, então eu queria saber. mesmo. ontem, quando você chegou tarde em casa, e disse que tinha ficado fazendo hora-extra no trabalho pra termos mais tempo juntos no fim de semana. naquela maleta que você trouxe tinha um uniforme sujo de barro e cheirando a cerveja e suor.
-- pera aí..
-- e semana passada, quando brigamos por causa de um plantão que você faria numa noite em que jantaríamos com nossos pais; e você fez aquela cena toda, dizendo que o plantão era pra garantir um dinheiro extra pra uma viagem no fim do mês?
-- mas e não viajamos?
-- é, só que o tal "plantão" foi mais pra fugir da raia do que pra propiciar uns dias paradisíacos, né? eu bem sei do jogo de cartas desse dia..
-- então você fica me espionando agora, é? tá desconfiando de mim, acha que tô te traindo?
-- não, não acho. nunca disse isso, aliás. parece que você não me compreendeu.
-- pois me explica, então.
-- você é todo branco-no-preto. mentirinhas leves, né? eu sei que o fim disso tudo é verdade, que você me ama, mas sua maneira de mostrar o "branco" da verdade é intensificando-o por meio de um "preto". diz que vai ficar trabalhando, porque "é muito mais digno do que deixar a mulher em casa pra jogar bola". ah, mas eu ficaria tão mais satisfeita se soubesse do seu futebol, em vez de você precisar dissimular, fazer parecer outra coisa..
-- mas.. ah, não sei..
-- ..o que se passou pela sua cabeça? pois nem eu. se você falta com a sinceridade com relação a um simples jogo de futebol, se não gosta de me contar que não quer um jantar.. quem dirá com outras coisas mais graves. contrastes assim não são bonitos -- eles só inspiram desconfiança.
-- branco-no-preto..
-- pois é. eu só queria dizer que não acho que você está me traindo. eu sei que você não está sendo sincero comigo. e, convenhamos, será que tem coisa pior?

* radiohead - 'lozenge of love'


fazia algum tempo, talvez tanto que ele nem se lembrava ao certo quanto, realmente. cinco, seis anos. dá para se fazer muita coisa em um período composto de tantos dias assim, não? ter alguns filhos, viajar para vários lugares, construir uma carreira profissional sólida, abandonar um curso de universidade em favor de uma vida nômade e despretenciosamente inesperada. muitas idas ao mercado, algumas delas de olhos fechados, segurando as mãos de alguém que nunca se materializou, mas sempre esteve ali. sempre; até agora, inclusive, depois desses tantos cinco ou seis anos.

aquela última chamada telefônica, ligação para celular jamais atendida, ficou ressonando na memória. um toque interminável, que assumiu diversas formas ao longo dos anos: uma valsinha fosca; um brega pegajoso e arruinado; uma colagem versátil de sigur rós com belle and sebastian; um grunhido anasalado entoando que não estava nem aí, que não sabia, como todo mundo, onde exatamente seus ossos repousariam. era como se o telefone nunca tivesse sido recolocado no gancho -- e até hoje ele esperava ouvir o clique do outro lado da linha, a interrupção do sinal de chamada, o suspiro sutil que precede a voz humanizando a situação.

essa prolongação que borrava a linha entre real e imaginário pregava-lhe algumas peças, principalmente durante a noite, entre o lúcido e o sonho, quando podia sentir que alguém do outro lado finalmente pegava o aparelho para responder aquele telefonema interminavelmente insistente. quantas vezes não acordara estranhamente narcotizado, tateando cegamente em busca do celular, e grudando-o ao pé do ouvido, como se finalmente uma conexão firme tivesse sido estabelecida, e fosse uma questão de tempo alguém do outro lado responder.

todo esse tempo mais tarde -- essas estações todas cada vez mais imprevisíveis por conta das mudanças climáticas, esse curso universitário que chegou feito bola-e-corrente para limitar os movimentos e fazer arrastar um peso que só começou a se desfazer no fim da jornada --, quando ele ficou frente-a-frente com o telefone numa manhã gelada de julho, fez com que ele ponderasse a respeito do que estava prestes a fazer. e o que aconteceria se o telefone tocasse para não ser atendido novamente? que tipo de choque psicológico isso causaria? o que seria dele, da sua realidade, ao ouvir tocar novamente de forma intermitente aquele mesmo telefone, em circunstâncias tão parecidas?

ele se fixava em seus planos, no horário meticulosamente agendado. queria finalmenter concretizar a ligação. ansioso, discou os números com cerca de dois minutos de antecedência para o fim do prazo estabelecido.

e talvez ela estivesse ao lado do telefone, só esperando. ou então foi mera coincidência -- talvez ela estivesse passando para ir tomar um copo de água. certo é que mal-e-mal tocou o telefone, o tão esperado clique interrompeu a sequência monótona de ruídos, e um suspiro meigo antecipou uma voz doce, levemente afetava por um sotaque típico, melodioso, bonito.

a conversa foi só deles, pontuada por um resgate de todo aquele período, e do que veio depois. transcorreu naturalmente, tudo muito amigável, feliz, sorridente, encantador. ao desligarem o telefone, ele se sentiu flutuar, depois deslizar da cadeira e lentamente escorrer para o chão. era tê-la de novo em sua vida o que o fazia mais vivo, e não titubeou quando pegou o telefone mais uma vez para comunicar algo que havia deixado escapar, tamanha havia sido a quantidade de informação da primeira conversa:

-- alô?
-- ah, eu só queria dizer que tô realmente feliz.
-- é, eu também!
-- e olha, aquela música, enfim. você sabe. ela ainda é sua. continua sendo.

* the smashing pumpkins - 'by starlight'


-- e o que se faz quando se quer estar em todos os lugares do mundo, exceto onde se está fisicamente?
-- fecha os olhos e sonha.
-- e quando o repertório de fugas instantâneas parece ter esgotado?
-- imaginação é solo fértil. só sulcar, semear e aguardar três minutos debaixo de sol. nem precisa de água.
-- mas e se a terra estiver muito batida, consistência de areia de praia, como vou sulcar e deixar demarcado?
-- juntos a gente dá um jeitinho de cavocar buracos até encontrar terra boa no fundo.
-- juntos, é? então cê pode começar agora. dá um abraço, vai? daqueles bem demorados e firmes.
-- hmm?
-- cá me deixar aconchegar em você uns segundinhos.
-- ah, sim! dizem por aí que é bem mais do que calor que a gente compartilha, né? acho que tem até pesquisa comprovando o efeito terapêutico.
-- pesquisa? efeito terapêutico? você precisa de ciência pra confirmar? deixa eu participar de sua pesquisa de campo então, que tô precisando de carinho.
-- ahaha. vem cá, então, ser a primeira a fornecer dados pra meu estudo. isso, isso. fica assim não, viu? tá se sentindo melhor?
-- tô sim. mas tem uma coisinha só.
-- que seria?
-- nada de sair abraçando e beijando assim outras voluntárias, viu? a única vaga aberta pra coleta de informações pra esse trabalho já tá devidamente preenchida.

* iliketrains - 'come over'


quando soube da memória que não tinham por ele, fez o contrário de se desapegar: fincou ainda mais fundo o mastro e hasteou a bandeira que simbolizava seu carinho, para todo mundo ver tremular em vento hostil e quente.

em tempos de greve e guerra, tudo o que ele sabia fazer era dinamizar em direção a uma confraternização. era pelos opostos que ele se fazia notar, ainda que por intermédio da desconfiança alheia. afinal, que demonstração gratuita de afeto não é recebida com suspeição?

então, analisando assim até que se entende; mesmo com os amigos dizendo para ele deixar o tempo correr, a ferida sarar, ele insistia em rodar contra os fusos horários, insistia em desgastar as cicatrizes -- recordar a época, o ardor, buscando enlouquecer os ponteiros, desvirtuar o tecido da realidade. seja regredindo para consertar, seja avançando para retomar.

não sei, a impressão que ficava era a de que ele buscava uma manifestação física desse desejo de reconciliação. um fenômeno, um acontecimento sobrenatural que o arrebatasse. uma segunda chance concretizada.

pois bem. no dia em que ele sumiu, estávamos tomando um café na varanda. acho que foi a fumaça aromatizada subindo lentamente da xícara. pensando melhor, talvez tenham sido os bolinhos: massa com gosto de baunilha salpicada com quadradinhos de morango. havíamos passado a tarde enlameando com mistura de farinha, leite e ovo as paredes caiadas da cozinha. ao raiar alaranjado do crepúsculo, saímos para provar nossa experiência.

varanda ampla, jardim espaçoso, café fumegante e os bolinhos saltando da bandeja para nossas mãos. conversa vai, conversa vem, ele triscou de leve os dentes no quitute amolecido. estranho como ele revirou os olhos ao sentir um dos moranguinhos. achei que era o azedinho, mas era não. era algo mais. alguma coisa quase que inexprimível. relembrando agora, provavelmente era a conexão tão procurada, a lembrança-chave para provocar a ignição. daí em diante, só descrevendo o evento: ele sorriu, fez um "puf" engraçado e esfumaçou-se. tal qual ninja cuja fuga é acortinada por vapor, ele simplesmente desapareceu.

eu nem contei a ninguém. já me tinham por imaginativo o bastante, nem precisava adicionar à fama. fato é que voltei a vê-lo somente três dias depois, em sua casa mesmo. passara o tempo todo fora -- denunciavam-no os panfletos com promoções de produtos de informática empilhados na entrada da residência, e que ele religiosamente apanhava antes de sua caminhada vespertina. se alguém dera por sua falta, não se manifestou publicamente (saudade de banco cobrando o atraso no pagamento do cartão de crédito através de mensagens deixadas na secretária eletrônica não conta).

e aquela foto emblemática do estrago em que ele se encontrava, datada de três semanas, em que ele aparecia emburrado, tristonho, em meio aos seus sorridentes amigos de faculdade durante uma excursão, estava inexplicavelmente mudada.

eu quis perguntar, mas acabei por me contentar com a resposta em formato de semblante de missão cumprida vinda de seu rosto iluminado, exposta quando veio trazendo nossas já famosas xícaras de café: de onde havia surgido no papel, como que pincelado por mágica, aquele sorriso tão radiante?

* the smiths - there is a light that never goes out


"it went the dull and wicked ordinary way
and now i'm sorry i missed you
i had a secret meeting in the basement of my brain"

(the national - 'secret meeting')

-- essa aparência de noite que todo dia tem seria de fato interessante não fosse um porém: não enxergo bem no escuro.

eu dizia isso a ela, assim lentamente, destacando cada sílaba com paciência, figurinhas engraçadinhas retratando algum personagem conhecido saídas de um pacote lacrado. deviam ser engraçadinhas, ao menos: ela se ria, assim descaradamente, soprando de volta para mim as sílabas suspensas no ar por uma cola das mais vagabundas. era tão fácil desdizer meus enunciados que, certamente, eu nunca completaria um álbum. provavelmente eles deslizariam pelas páginas e despencariam no chão. auto-colantes uma ova.

aliás, do jeito que as coisas andam, se fossem realmente figurinhas meus enunciados pertenceriam a uma coleção dos ursinhos carinhosos. "coisa mais divertida você, com esse seu jeito pra frases que querem filosofar mergulhando de cabeça numa poça", respondia ela, e ria abertamente. eu amarelava um sorriso.

tem sido assim, de fato. na verdade, eu só queria fazer perceber meu estado de nervos fraturados, esse pequeno mundo de colapso só meu que vem se agigantando cautelosamente. não tenho essa mania de acertar um assunto nas têmporas com um tacape e puxá-lo cena adentro pelos cabelos. prefiro uma abordagem mais teatral, um toque mais fantasioso, maquiagem leve não para cobrir as imperfeições, mas para realçar as belezas. coisa de quem vive mais dentro de si, eu acho: tanto da melancolia do mundo já é tenebrosamente cru; posso ao menos fazer de mim algo menos visceral quando o assunto é comunicar tristezas.

pois quando eu vejo que não dá tão certo, eu penso em mudar. e quando eu não consigo mudar, eu volto a conversar mais comigo mesmo. aí eu chego à conclusão de que, às vezes, não é tão fácil solucionar coisas sem ter como conversar com mais gente do que você mesmo. e então:

-- sabe quando você tem a impressão de que o mundo não pára quando você puxa a cordinha justamente porque o motorista é sádico e gosta de ficar circundando a mesma praça só para ver sua cara de enjôo com o movimento e de desespero com a rotina?

talvez seja meio vazio de significado direto, mas tem toda aquela história da pragmática. eu, particularmente, vejo sentido demais nas coisas; e quando ela me olha sempre rindo, ou quando o pessoal comenta como isso é um jeito tão estiloso de se falar, então eu volto a discutir comigo mesmo, naquele tipo de reunião interna para decidir os rumos da administração da empresa. reunião que sempre demora muito, e que nunca realmente decide. mais toma tempo mesmo.

e numa dessas de tomar tempo para confabular intimamente, passou o ônibus varado pelo ponto e eu nem estiquei o braço. perdi o compromisso. toca o celular depois de 20 minutos: ela do outro lado, furiosa com o atraso, cuspindo fogo de fazer esquentar minha orelha. não é pouco o que ela fala antes de eu ganhar a chance de dizer algo:

-- desculpa.. eu tava em meio a uma reunião pra tentar salvar o empreendimento falido que sou eu mesmo.

eu pude sentir uma mudança de humor, uma tentativa de abafar uma risada que jorrou jovial e inocente, e palavras perdidas que soaram como "ah, mas você não muda mesmo, né?".

nem eu, muito menos todo mundo, aparentemente. vai ver, é mesmo a mecânica do ordinário que regula nossas engrenagens.

* arrah and the ferns - 'problems'


-- eu não disse que quero fugir.

eles bem se conheciam, e a mocinha bem sabia: todo anúncio emoldurado pelos lábios sempre úmidos dele não tinha gosto de novidade, o levemente azedo que surpreendia o paladar cautelosamente preparado e provocava sutis arrepios de excitação ingênua -- suco de limão fazendo formigar a superfície da língua.

ele tinha o dom de racionalizar. de computadorizar impulsos, atravessá-los inteiros no picotador para depois categorizar cada faixa de papel resultante. até os brancos inutilizados recebiam rótulo. cada decisão tinha focinho de capítulo de livro, aquele imponente ponto-de-interrogação serpenteando o ventre numa dança hipnótica e pedindo para ser pensado principalmente conforme o antes e o depois.

o agora? parecia que nem existia, tanto que se gastava para decidir se valeria mais à pena pegar a sessão das 16:30 ou das 20:00 -- a primeira garantia uma entrada mais barata e a presença dela, mas envolvia uma arriscada operação de abandono do posto de trabalho; a segunda compensava a perda do futebol e a ausência dela com a companhia de vários amigos.

pois nessa gangorra de passado e futuro, para o presente ele reservava -- inconscientemente mesmo, porque ele julgava aproveitar muito bem seu tempo -- a revelação chocante de suas decisões. todo anúncio emoldurado pelos lábios sempre úmidos dele não tinha o gosto de novidade: tinha era gosto nenhum. quando vinha, se vinha, vinha meio mofado pela ação interminável dos neurônios, traças cognitivas -- e aquela textura rançosa e gosmenta de leite coalhado que deixava uma impressão desgostosa na superfície da língua costumava demorar horas a sair; e mesmo os beijos sucessivos que roubavam o gás carbônico da circulação respiratória dela pouco contribuíam na remoção dos detritos. embora o delicado sabor de pêssego em calda tornasse a experiência mais suportável.

pois é, ela amava pêssego em calda. tinha várias latas em casa, repovoava o estoque uma vez a cada nove dias, e amaldiçoava o fato de eles sempre virem lacrados em latas que requeriam muito mais do que um movimento ríspido de pulso para a abertura. ele, por sua vez, manejava como ninguém o abridor de latas, e sempre era o responsável por utilizá-lo. ela sempre se deliciava ao ver o líquido nascido do recipiente escorrendo vagarosamente pelos dedos dele, e quase esquecia de que só havia uma coisa que ele sabia fazer melhor do que manejar um abridor de latas: oferecer a ela, sem esforço algum, aquela consistência porosa de leite coalhado cobrindo todos os sensores de sabor da língua.

ela sempre quase esquecia, porque ele fazia uma questão que seria sádica se não fosse inconsequente de estimular a lembrança:

-- lembra de ontem, quando discutimos? -- ele disse, mais concentrado no abrir da lata do que no que falava. era costume dele começar uma conversa de uma forma tão geral que não se podia fazer outra coisa senão concordar com o que está sendo posto em discussão. ela só acenou positivamente com a cabeça, e ele desferiu o golpe: -- eu não disse que quero fugir.

instintivamente ela cobriu a boca com uma das mãos, suprimindo a vontade de vomitar. uma xícara inteirinha de leite coalhado empastando a boca. "ele passou a noite toda pensando numa resposta adequada?", ela pensou, adormecendo os sentidos para adequá-los à nova sessão de teorização que se anunciava. mas o que ela não sabia e que estava além de seus dons telepáticos (porque se ele racionalizava, ela não ficava atrás com suas telepatizações), provavelmente travados pelo leite coalhado que desejava esgueirar-se garganta abaixo, é que ela estava presenciando um distúrbio no contínuo da rotina, uma arritmia psicológica. muito longe de ruminar, ele estava é sendo franco em sua repentina fome.

olhos nos olhos, abridor de latas abandonado, ele a desarmou. e sua telepatia, mesmo quando em força extrema, jamais poderia prepará-la para o azedinho curioso do limão que em segundos lhe faria formigar a língua:

-- eu disse que vou fugir. e quero que você fuja comigo.

* liars - 'plaster casts of everything'


volta e meia me vem esse frio escalando os ossos, as pequenas picaretas esbucarando a lisa superfície branca, estalando em estocadas precisas, provocando rachaduras que se alastram à velocidade do vento. deve ser daí que provém a fragilidade, o andar manquitolante calcado em incertezas, a vontade de desabar sobre o colchão mais próximo e de se enovelar no cobertor: hibernar, depois avançar o torpor por cima das primaveris chuvas coloridas, então cobrir o calor do verão com a mesma membrana de inércia, por fim soprar as folhas secas do outono usando a respiração pesada do sonho para então voltar a hibernar sem ter saído do estado sonolento.

* the twilight sad - cold days from the birdhouse


o momento não tinha cor de despedida. aquele azul choroso, metafísico, docemente intransigente que caracterizava os instantes precedentes à separação. de vez em quando ele fechava os olhos, buscando um alento, uma confirmação de que aquilo não tinha cor de despedida -- e, é bem verdade, sobre a brancura antártica gotejava lentamente um laranja tênue, que ia sendo gradualmente sorvido e prosseguia contaminando a imensidão. então ele, de olhos fechados, sorria e se exaltava em leves tremores, e ela observava tudo atentamente. as mãos atadas às dele, ela percebia seu transe, e se perguntava o que seria que o fazia tão feliz.

num momento como aquele, não parecia muito certo ficar sorrindo de olhos fechados, tão aparentemente à toa. era até grosseiro.

ele fazia isso incidentalmente, e disso ela não sabia. não chegava a ser automático, e também não era controlável. simplesmente acontecia. volta e meia, quando ele fechava os olhos, todo o mundo por detrás das pálpebras ficava branco, imaculado. e logo em seguida pequenas gotas começavam a colorir aquela tundra, e tudo ganhava uma única cor. no princípio, ele achou que isso era assunto de médico; mas por ter tanto medo de jalecos brancos e nojo de ambientes muito limpos, optou por aprender a conviver com isso.

ele olhava só para os olhos dela. ela retribuía a fixação ocular, e para quem passava, pareciam brincar de quem fica mais tempo sem piscar. num dado momento, ele virou o rosto para dar uma informação. apercebeu-se então das vozes esterilizadas emitidas pelo sistema de som; dos carrinhos repletos de malas; do choro da criança que tinha medo de avião. ficou aterrado, e no meio do choque, procurando um alento imediato, uma anestesia, fechou os olhos.

incidental, como havia dito. ele percebera, conforme a prática lhe fora ensinando, que cada cor pertencia a um momento. categorizou as cores: vermelho para assalto; verde para paixão; roxo para catástrofe climática; cinza para comida estragada. era engraçado, ele pensava, porque havia coisas mais importantes e interessantes que seu sistema de cores não detectava: a morte ou a escolha de um bilhete premiado, por exemplo. de qualquer modo, algumas espécies de situação provocavam, de vez em quando, uma reação. de vez em quando: havia momentos em que, por detrás das pálpebras, seu mundo era como o de todo mundo: escuro. ele não sabia quando aconteceria; só sabia que, quando acontecia, era infalível.

o que ela fazia naquele ponto era suportar sua vontade de esbofetear o rapaz com bolsadas bem dadas na altura do queixo. era imprescindível o que ela queria dizer, e seu semblante consternado e tenso transparecia muito sofrimento. lá vinha a presença espectral anunciar o pouso de tal avião através do alto-falante, e ela percebeu que já era quase hora de ir. cheia de impaciência, mordida pela pulguinha da angústia, beliscou-o sem dó.

de todas as cores, a que ele mais temia era o amarelo, cegante, corrosivo: a cor da quebra de confiança. o azul não ficava tão atrás -- um honroso segundo lugar na escala de pânico para o azul choroso e metafísico da despedida. entretanto, aquele laranja mortiço do saguão de espera no aeroporto tinha qualquer coisa de estranho. aquele laranja, se bem que não tão alaranjado, não era azul. tinha tudo para ser, era uma cena típica de azul, e, no entanto era laranja. e ele nunca tinha visto aquela nuance antes.

ele tornou à terra. estava satisfeito consigo mesmo, pois a cor do momento não era azul, e a infalibilidade das suas percepções cromáticas garantiam a permanência. nem sentiu o inchaço no local do apertão. olhou-a leve, e ela se sentiu duplamente pesada. respirou fundo e derramou uma lágrima. uma única lágrima, que brilhou um alaranjado desmaiado, refletindo a luz de um letreiro próximo.

ela precisou visitar-lhe o pé do ouvido, pois sua voz acorrentara-se a uma das pedras que lhe oprimiam o peito. ele, por sua vez, enquanto ela falava, nem precisou mais fechar os olhos para visitar o laranja esmaecido: da lágrima que se estilhaçara pingaram milhões de partículas que salpicaram seu campo de visão. logo em seguida, o mundo era laranja.

o que ela suspirou, ele apreendeu. ao fim, mais uma vez se entreolharam vorazmente, mas sem mais ver em um a alma do outro. nem ver também a alma a quem os olhos alheios pertenciam. sem enxergar alma nenhuma se entreolharam: os reflexos nas janelas fechadas revelavam rostos transmutados, desconhecidos de si mesmos. as mãos atadas, há muito adormecidas, fizeram questão de se repelir. como se magicamente afetados por um desapego irreprimível, foram os dois cada um para seu lado: ela, para o portão de embarque; ele, para a saída do saguão.

durante essa última caminhada em que os dois estiveram um no campo de visão do outro, ela não virou a cabeça uma única vez na direção dele. estava tomada por um louco desespero de deixar tudo, simplesmente se permitir dissolver nos braços dele, como na última noite, nos goles sôfregos de vinho tinto e nas mordidas leves no pescoço acompanhando as lentas imagens de um filme romântico. preferiu seguir em frente e conservar a sanidade. ele, por sua vez, embebido no frescor da notícia trágica, lançou-lhe um olhar desafiador e ao mesmo tempo implorativo, que a convocava a se entregar: um convite à libertação. acompanhou-a com os olhos até que ela se misturasse à massa, e percebeu com desgosto a recusa inexorável feita a seu convite. desenhou então, no ar, um adeus meio ressentido, meio abnegado.

ele conheceu ali, naquele saguão refrigerado, o significado daquela cor inusitada: laranja desaquecido, laranja cor de deserto.

* the eames era - 'listen for the sun'


num daqueles cruzamentos movimentados de trânsito vagaroso durante a hora de saída do trabalho, o sinal vermelho abriu caminho para os pedestres. meio caminho andado na faixa de segurança, e ele, sempre de cabeça baixa, como lhe é costumeiro, passa batendo numa sacola gelada de supermercado e roçando o tecido liso da saia florida que cobria as pernas de uma moça. moça qualquer, pensou ele, e ainda mal-educada: nem olha por onde anda.

mas o passo seguinte lhe provocou um calafrio no calcanhar do pé direito, uma sensação de desequilíbrio, de estar pisando em gelatina. girou de leve a cabeça. viu um pote de sorvete dentro do plástico que pendia das mãos daquele corpo. alinhou os olhos com o horizonte. e então perdeu o mundo de vista em meio àquela deslumbrante coleção de cachos castanhos.

nem a algazarra das buzinas e o ruidoso arranque de um motorista mais apressado o fez perceber que se tratava da sua vida em jogo, ali no meio do asfalto; o sinal desavermelhando e ele maquinalmente se arrastando em direção à calçada oposta. talvez não fosse do seu feitio acabar enfeitiçado pelo balançar solto de uma cabeleira, mas havia de abrir exceção. aquela moça tinha qualquer coisa de.

vibrante. a forma como ela acelerou as passadas e chegou sã e salva ao outro lado, a tempo de lançar ao ar alguns impropérios elegantes, lançá-los mesmo, sem destinatário. e aquela morena vistosa parou para ajeitar uma das sandálias; enquanto metade dele se endereçava ainda ao outro lado da rua, a outra parte se esforçava por chamar a atenção da moça.

não deu. salvou-se a integridade física, mas ele, a sua imagem acabou engolida pela monstruosidade que era aquele ônibus de viagem de dois andares, que veio desembarcar passageiros como de costume, mas que curiosamente estacionou uns cem metros depois da parada original. e ela, os seus contornos harmoniosos nem perceberam os acenos desesperados por detrás da lataria, e foram sobressair-se em outra vizinhança; ali ela só tinha ido em busca de sorvete de menta-achocolatada para seu irmãozinho doente.

embora ele tenha sempre passado a cruzar de cabeça erguida aquele entroncamento, nunca mais a viu. exceto nos corriqueiros sonhos que se recusavam a deixar morrer o frustrado encontro fortuito. ou nas raspas de chocolate que adocicavam o frescor da menta de seu novo sabor favorito de sorvete.

* hello seahorse! - 'atardecer en parapent'


-- um bom dia para se voltar a escrever. assim.

e bateu a parte inferior do lápis por três vezes na escrivaninha.

-- porque eu não consigo escrever com caneta. sempre vou esfregando a mão por cima da tinta; acabo ficando com a mão suja e com a página estragada.

* helen stellar - 'weightless'


-- enterramos aqui então, debaixo dessa árvore.
-- e você pretende voltar até aqui um dia? assim..
-- pra ser sincero contigo.. não. acho que não.
-- é. eu imaginava.
-- desapontada?
-- não, não. longe de mim. mais resignada mesmo. é engraçado.
-- o quê?
-- isso. de ser sincero. engraçado como todas as tuas verdades não andam de mãos dadas com as minhas.
-- você sabe, me conhece. nunca fui de falar coisas apenas porque os outros as querem ouvir.
-- pois é. e eu, eu nunca fui de gostar de escutar as pessoas dizerem o que eu gostaria de ouvir só por dizerem, assim.
-- isso pode gerar situações desconfortáveis, não?
-- pois é.
-- como essa agora?
-- basicamente. embora você não tenha falado o que eu gostaria de ter ouvido.
-- bem verdade. mesmo desse jeito, sinto tê-la desapontado.
-- você fala como isso se tratasse de uma de suas apólices de seguros.
-- como assim?
-- exatamente assim. assim mesmo. escuta, lobo mau. por que tantas perguntas?
-- é pra te entender melhor. tão enigmática, você e suas alusões e frases entrecortadas.
-- eu, sinuosa como uma interrogação. você, retilíneo como uma folha de papel em branco.
-- mas pode ser colorido, né? laranja, e sem estampas.
-- engraçadinho. vamos voltar pra casa? está ficando frio. e preciso fazer as malas.
-- enterramos aqui então. tá decidido. mas e depois?
-- vamos desenhar um mapa, anexá-lo a umas anotações misteriosas, colocar o conjunto num envelope e por fim afixá-lo.. quem sabe na parte de trás da moldura daquele quadro esquisito que sempre esteve na nossa sala.
-- boa idéia! vai dar uma ótima caça-ao-tesouro para os filhos da família que for morar ali no futuro.
-- é. nossas lembranças reduzidas a um jogo infantil. não era bem essa a idéia. mas, enfim.
-- mas..?
-- faz sentido. talvez só tenhamos brincado de casinha durante todo esse tempo mesmo.

r.e.m. - 'e-bow the letter'


* 11 de fevereiro de 2007


e eu fui ali, mas me perdi na volta; comecei a andar pelo corredor e percebi que aquelas paredes avermelhadas tinham um sabor conhecido, mas que me lembrava de nada. então fechei os olhos e, ao abri-los, eu estava -- vejam só! -- deitado na entrada de uma casa a uns quilômetros de distância de onde moro.

ainda bem que gosto de caminhar. e voltei a tempo de encontrar a agência dos correios aberta, parecia que só me esperava, para eu postar aquela flor de macieira que eu havia prometido. que eu encontrei fugindo sorrateiramente da árvore numa colina e que passou o traçado me agradecendo pela oportunidade de não depender do vento para sair dali, porque tinha medo de grandes alturas.

ao fim do dia, a vizinhança conhecida acendeu as luzes de seus quadradinhos empilhados e eu vi o meu apagado, só aguardando, talvez impaciente. da porta de casa para a cama foram dois piscares de olhos: um para cruzar os cômodos sociais, outro para abrir a janela do quarto e deixar o vento entrar. então foi só fechar os olhos e sentir o brilho artificial das lâmpadas esvanecer, o murmúrio das ruas se abafar, a cidade ficar para trás e deixar existir a civilização que se esconde no lado obscurecido da lua.

the bank holidays - 'like a piano'


* 22 de janeiro de 2007


hoje é um daqueles dias em que se é humanamente impossível permanecer parado. tudo muito quente, você sente o ar te abraçando e não querendo largar.

vou caminhar mais um pouco pelo corredor e volto logo mais.

andrew bird - 'dark matter'


* 17 de dezembro de 2006


não era sempre que olhava pela janela e buscava lá fora um dente-de-leão. geralmente era coisa mais abstrata, por que não mais inexistente, como da vez em que quis vislumbrar um disco voador e passou horas documentando a ocorrência de luzes esquisitas, que piscavam erraticamente e pareciam ziguezaguear na baixa atmosfera. ou então quando teve vontade de capturar um floco de neve com um tubo de ensaio; tinha em mente experiências mirabolantes envolvendo bonecos-de-neve robotizados e movidos por alquimia; e esticou o bracinho mirrado pela janela, galhinho esbranquiçado que ficou torrando ao sol enquanto as horas passavam e o outro braço dedicava-se a anotar constatações até meio óbvias a respeito do clima sub-tropical litorâneo da cidade. ou qualquer que seja o nome atribuído a esse pandemônio tão peculiar:

"diabos! lugarzinho temperamental, não nega essa cara sorridente. mais um dia sem neve."

a caligrafia era assim, exótica, rabiscos afetados por uma tendência ao exagero e por um maneirismo de escrever perpendicularmente às linhas azuis. costumava também ser tremendamente indulgente -- parágrafos exuberantes, insinuavam-se com linguagem venenosa e intenção bifurcada, rastejando através das páginas, sorrateiramente subindo pelos braços do leitor, sem cheiro ou fricção, quase que flutuando até aplicar constrição gradativa no pescoço: quando se percebia, a cabeça já estava entre os joelhos, boca aberta engolindo todo ar do mundo de um só gole.

não era sempre que se conseguia pegar aquele caderno; da mesma forma, não era sempre que havia algo interessante para se ler. os melhores dias eram justamente dias como o em questão, quando se apercebia do mundo de verdade do qual era parte. para usar de sinceridade, eram poucos. não se deve subestimar a corrosão provocada por um confinamento de prolongação indefinida, e mais ainda, o poder dos mecanismos de defesa, de auto-preservação contra essa corrosão.

dizer que há beleza na tragédia é subtrair-lhe o elemento que lhe qualifica como tal: o desastre. aquilo que é trágico não pode ser belo, verdadeiramente belo, aos olhos de quem se considera humano se o desastre toma parte na equação. veja bem, fitar seus olhos quando um dado acontecimento rompe a película que guarda seu mundo particular e joga sua consciência no plano compartilhado por nós, fitar seus olhos provoca uma reação indescritível. é ver todo entusiasmo convergindo para dois únicos pontos. contagiar-se com a excitação proporcionada por algo que seria tão mundano, visto com olhos cansados pelo cotidiano.

só esses dias de brilho mais intenso do que poderia ser fazem atenuar a tragédia inerente a se ver um corpo tão jovem preso a uma cama e uma mente tão promissora fugindo da própria capacidade. em meio a túrgidas anotações sobre banalidades e rompantes insanos com direito a obscenidades desmedidas, surgem floreios fantásticos que indicam uma genialidade fora do comum, a escrita-serpente que de assalto realiza o bote certeiro e com sua toxina inebria os músculos e intensifica os sentidos.

e pensar que antes vivia a se queixar de sua alegada mediocridade, bicho de estimação que ferozmente mantinha sua habilidade em cativeiro.

agora vem o dente-de-leão, entrando pela janela e pousando-lhe no ombro, de leve. quais serão as palavras encantadas que chegam amarradas em suas cerdas dessa vez?

ramona cordova - 'heavy on my head'


* 03 de dezembro de 2006


"sabe, não tenho tanto a dizer quanto achava que tinha."
"e ainda assim você parece falar demais."

the walkmen - 'rue the day'


* 28 de novembro de 2006


e depois de tantas palavras sem pai nem mãe, de tantas sentenças sem pé nem cabeça, depois de considerar a possibilidade de ser um caso perdido, eis que no meio de monólogos órfãos e amputados surge talvez uma segunda voz disposta a dialogar.

talvez eu achasse que as coisas fossem ganhar muito mais sentido, mas a verdade é que parece que o sentido é inversamente proporcional à satisfação. ou mesmo à felicidade.

sendo coerente com essa descoberta mirabolante, acho que procurar ser são através da loucura não é de todo um disparate.

e toda essa busca pela retidão que até então vinha sendo desempenhada inverte-se. enfim, quando se pára para refletir, as coisas mais sensacionais da vida realmente não podem ser explicadas racionalmente de uma forma convincente, ou que faça jus a tudo que elas provocam, não é?

melhor então seria, seguindo esse caminho, não valorizar tanto os porquês, ou no mínimo valorizá-los menos do que os sentimentos em questão. bem menos.

"e então, o quê que cê acha..?"
"aplicável. mas não renderia uma tese. de jeito algum. um ensaio, provavelmente. uma dissertação quem sabe, mas isso com muita boa-vontade."
"gosto da tua sinceridade. não vou muito com a cara é dessa tua maneira de pensar tudo em termos acadêmicos. eu pedi uma opinião sentimental, não uma análise qualificatória."
"então você me considera um robô, né?"
"você e sua mania de su..."
"antes um robô bem-sucedido do que um escritor frustrado."
"antes um autor desconhecido do que uma pesquisadora descerebrada."
(um breve silêncio contendo uma mais breve troca de sorrisos)
"e nos amamos tanto, no fim das contas. vai dizer que faz sentido?"
"quer saber? eu acho que com alguns aprimoramentos eu posso aproveitar e transformar aquilo ali numa dissertação."
"e todos saímos felizes, sem frustração ou robótica."
"mas é claro que teu nome sairia numa nota-de-rodapé feita para não ser vista a olho nu." (um sorrisinho malicioso indicando provocação)
"eu preferiria assim. deixo o sucesso acadêmico para quem se satisfaz com um ambiente tão infrutífero." (devolve o sorrisinho)
"e nos amamos tanto, né? não tem como explicar."
"é, realmente não faz o menor sentido. exatamente como tem de ser, eu acredito."

* 05 de novembro de 2006


eu tenho esse cansaço, sabe? essa vontade estranha de ficar vendo o mundo a partir da janela do meu quarto. essa ânsia por músculos de concreto, por articulações enferrujadas, por uma fatia de bolo de melatonina. uma rede, não um carro. um esconderijo, nunca holofotes.

toda essa pressa, todo esse avanço, e eu meio que parado, de futuro encostado contra a parede. não sei se tenho exatamente receio disso em que pareço estar me tornando -- até porque desconheço o que seria. aliás, talvez seja essa ignorância que me empurra pra frente e não me deixa tomar uma atitude diferente. vai ver, o que está por vir vem para ser melhor, então.. deixa chegar?

* 13 de setembro de 2006


e então a gente voava por entre nuvens e cordilheiras que se entrelaçavam, os raios de sol perfurando a leve neblina do raiar do dia, o mundo em movimento enquanto o tempo se locomovia desinteressado. e não era raro parar num cume de montanha ou outro e empreender uma pequena conquista de território, uma busca por algum tesouro milenar ou alguma construção esquecida, um piquenique com direito a toalha quadriculada.

yo la tengo - 'pass the hatchet, i think i'm goodkind'


* 12 de setembro de 2006


preciso voltar a pensar frases com mais de dez palavras.

the new pornographers - 'use it'


* 02 de setembro de 2006


"e você sabe, tudo que eu venha a te dizer vai sair pelos meus lábios da forma mais errada possível."
"ou eu mesmo distorcerei o sentido de cada frase tua, para melhor encaixar a inferência resultante no meu plano de rejeição. não é?"
"não é. eu ainda acho que você deveria mais prestigiar a substância. em detrimento do estilo, eu digo. essas tuas demonstrações de perícia no manejo da língua me afetam como calculadas, erguidas a partir de uma planta arquitetônica cujo projeto é exuberante demais para resistir ao próprio peso."
"tal qual a era vitoriana, o contemporâneo prima pelas e se gaba das aparências. se eu escancarar meu coração com um abridor de latas, estarei sendo grotesco e piegas. se eu embaralhar minhas intenções numa malha verborrágica e labiríntica, certamente que conquistarei. tanto pela maestria quanto pela confusão."
"e pretende pendurar a medalha de campeão do torneio de soletrar na varanda da sua casa, naquele ganchinho para redes?"
"o armador?"
"você e sua mania de ensinar. eu sempre tenho razão. não é?"
"acaba sendo. eu sempre perco a razão quando enveredo pelas tuas florestas."

nouvelle vague - '(this is not) a love song'


* 22 de agosto de 2006


enquanto a maioria das cidades do mundo crescem na vertical, e algumas outras até pelos subterrâneos se alastram, você brinca nem de ser formiga, nem de ser abelha. tua civilização é absurda, não é? fica suspensa no etéreo do ser-não-sendo, do existir conforme rezam as lendas dos povos imaginários que compõem tua imaginação multi-facetada.

eu te digo, júlia, eu te digo que tenho inveja do teu escapismo mirabolante. tenho inveja até do acento que figura em teu nome. tenho vontade de gravar a estilete na minha pele uma ode à vertigem que é percorrer tuas ruelas sem jamais ter idéia do que encontrar ao dobrar de uma esquina. minha vida acompanha o relógio biológico das corujas, mas a tua júlia, a tua reinventa a biologia e rearranja os cromossomos para produzir uma espécie nova e esplendorosa, inominável.

eu tenho um receio recôndito de um dia ter de te confessar que tenho desenhos a carvão das tuas visões maravilhosas espalhados pela parede de meu quarto; e que lá o chão é coberto de tinta moldada numa caligrafia tortuosa, repetindo as linhas, os versos, a música falada do teu mundo, que você sempre dividiu comigo.

radiohead - 'in limbo'


* 22 de agosto de 2006


"eu só me apaixono pelo inexplicavelmente inacessível.", disse ele. não era a primeira vez que tocava no assunto, e não seria a última que seu colega responderia com um suspiro prolongado e um desejo secreto de que as freqüentes lamentações abandonassem os lamentos e prestigiassem as ações.

como ainda mandava o costume, nada mais se ouviu depois do suspiro. transbordantes de rotina para saberem minuciosamente os caminhos da discussão, mas não tanto que justificasse uma tentativa de abortar o ritual. assim era a preguiça de ambos. ou medo, talvez.

são dúvidas metafísicas. a realidade, aquela palpável, é bem menos interessante. "eu só me apaixono pelo inexplicavelmente inacessível, claude.", repetiu ele. e a empolgação de claude era perceptível no fato de este ter repetido a frase daquele em sincronia, com movimentos precisos e exagerados dos lábios.

o local onde se desenrolava a monotonia em questão era pleno antagonista em termos de vivacidade. pessoas indo e vindo, casais abraçados mastigando pipocas cobertas com chocolate, crianças sendo puxadas por seus gigantescos elefantes e suas imensas borboletas preenchidas com gás hélio, um acordeon e la valse d'amélie embalsamando a tarde ensolarada na mais absoluta harmonia, pétalas sendo arrastadas pelos ventos leves de inverno.

tudo tão perfeitamente romantizado, tudo tão esplendidamente colorido, tudo tão fantasticamente irrelevante. como sempre. olhando ao redor, ele sem cerimônia aponta seu guarda-chuva em direção a uma jovem que reluz e se destaca entre suas cinco companheiras num belo vestido vermelho de decote recatado. "podia ser ela, não? de cabelos esvoaçantes. ela seria uma bela inspiração."; adicionou então, com um ar de enlevo, "e ela, mais à ponta esquerda do banco? ah! não creio ser merecedor de atenção alguma vinda de moças tão distintas. e nem elas me fazem a cabeça, para te ser sincero, claude. você sabe.".

foi então que puxou de um dos vários bolsos internos de sua casaca desproporcional, onde caberiam uns dois do seu tipo físico e mais uma metade, com um certo espremer de corpos, mas dizíamos que ele enfiou a mão abruptamente num dos bolsos e tirou uma foto. alisou o rosto impresso no papel, papel protegido com todo cuidado, embalado em plástico autocolante e jamais dobrado em toda sua existência.

claude sabia o que fazer. semanas, meses de experiência acumularam-se, e ele ditava para si em sussurros, inconscientemente, o passo-a-passo da operação.

"ainda assim, claude. ainda assim eu não tenho vontade, sabe? na verdade, acho que vontade eu até teria, se isso me fosse possibilitado. mas o que acontece é que sentir vai além de ter as coisas como se quer, não é? além do mais, não se controla. mas. é, eu sou feliz, sinto com tudo que sou. e ela também, feliz, é o que importa, poder senti-la feliz. não sei quanto vai durar; pela vida, ao que tudo indica. é, sim, é isso mesmo, incondicional. seja como for."

terminada a conversa, claude deu-lhe três tapinhas leves nas costas. recebeu em retorno um olhar breve, lacrimoso, mas repleto de sinceridade: se havia coisa outra que ele realmente sabia fazer além de lamentar, essa coisa outra seria demonstrar sinceridade para com as pessoas que ele adora. também aquele olhar não era novo a claude, mas quando este chegava em casa depois de uma tarde assim, não cansava de admitir a si mesmo que aquele olhar sempre tinha um efeito incrível. era nesse ponto que toda rotina se dissolvia, que toda balbúrdia do parque se amplificava a níveis audíveis e se tornava orgânica, que claude reconhecia a irreparável humanidade de seu companheiro.

"ah!, seja como for.", e então guardou a foto. com muito carinho, para não dobrar-lhe as pontas ornamentadas. "eu sei que só se passaram dezoito minutos desde que estamos aqui, mas me pesam como se fossem horas. vamos para outro canto; quem sabe debaixo daquela figueira? hoje eu vencerei a partida de gamão. apostamos aquele banana split caprichado?"

no caminho para a figueira, uma trilha de conchinhas de praia se fez no rastro dos passos descontraídos dele, despencando graciosamente dos galhos que prontamente se curvavam após sua travessia.

* 21 de agosto de 2006


digo estar um bocado cansado e então fico em casa. não é de agora essa respiração irregular, ou os olhos avermelhados e irritados tanto pela recorrente inflamação das pálpebras quanto pela falta de sono. esfregá-los, sim, para aliviar o quê exatamente? tem tanta confusão enlatada que já não reconheço se o estímulo que me faz levar as mãos aos olhos é dor ou fadiga.

poderia encontrar a solução deitando na cama: é um dilema para se fechar os olhos e esperar acontecer. cama coberta de livros empilhados, papéis amassados, cadernos abertos com folhas rabiscadas, moedas e roupas, lençóis com cheiro de abandono.

as idéias se interrompem assim. daqui a pouco posso estar falando sobre como seria bom ter uma casinha à beira-mar -- é bem diferente, mas nem percebo a mudança de direção.

então eu tento me controlar, e ao conseguir eu acabo me bloqueando. aí digo estar um bocado cansado e então fico em casa. desenhando triângulos sobre triângulos numa folha de cartolina.

* 14 de agosto de 2006


engraçado voltar a postar justamente quando se está ficando doente. esse espaço corre sérios riscos de se transformar num boletim médico esporádico.

mas vamos mudar isso, e é pra já.

ou pra daqui a pouco. primeiro vamos comer algo e tomar aquele coquetel supimpa de remédios que fazem a gente pensar que está melhorando.

e viva o inverno que finalmente chegou! por enquanto.

the pipettes - 'pull shapes'


* 31 de julho de 2006


tem esse estar gripado como há muito não acontecia, justo quando se começava a acreditar que a saúde tinha deixado de lado sua consistência gelatinosa e vulnerável para assumir um caráter rochoso, firme.

os vidros das janelas embaciados pelo contraste do calor interno ao apartamento com o frio que chacoalha a moldura metálica servem de telas improvisadas, e por eles voam meninos e meninas feitos de palito por sobre casas e plantas também feitas de palito.

quando essa tosse perder sua intermitência, eu corro até o telefone mais próximo para conversar.

beirut - 'postcards from italy'


* 17 de julho de 2006


quando se está atolado em trabalhos, nunca parece que o tempo livre que se tem vai ser suficiente.

tenho esse eu que insiste em dizer que valeria mais à pena sair caminhando por aí, ou quem sabe ficar escutando música e aproveitando melhor a vida. mas tem esse outro eu que diz que, apesar de tudo, é preciso investir na vida acadêmica para colher frutos saborosos quando for a hora de encarar o mundo profissional.

fato é que a gente precisa ir se virando. logo vou ter tempo pra voltar a respirar profundamente. quem sabe então eu não conte da vez em que fiquei pendurado numa árvore pela gola da camisa, a uns cinco metros do chão.

hora de ir pra aula. o/

* 11 de julho de 2006


interessante como sobreviver se torna um exercício de paciência, às vezes. eu aqui, sete horas a fio para criar dois ensaios, agora com uma dor de cabeça incrível, uma aula sensacional de psicologia da educação me aguardando antes do fim da manhã, e uma consulta junto ao dentista, a segunda em menos de uma semana. é o começo.

mas tem o frio, tem o frio. inverno com cara de inverno, é revigorante. e tranquiliza também, o ano passado foi tão esquisito que cheguei a pensar que estava finalmente presenciando o princípio de alguma catástrofe climática de proporções messiânicas, assim.

não que não esteja acontecendo. tem tudo isso de efeito estufa, degelo dos pólos, destruição da camada de ozônio, forças da natureza ficando cada vez mais revoltadas.

eu quero ver, tindolelê, aguentar as aulas até setembro. alguém tem um passe-férias pra me emprestar? eu compenso depois. eu sei fazer massagem, eu posso escrever alguma coisa em dedicatória, por aí vai.

ah, tenho uma barriga muito bem treinada em empurrar trabalhos de faculdade para adiante, até o momento em que tenho de enfrentá-los.

não que eu seja necessariamente irresponsável. mas preguiçoso, isso eu sou. talvez irresponsável também, né?

* 03 de julho de 2006


porque a ilha de santa catarina te oferece a possibilidade de encarar todas as estações do ano de forma bem distinta num intervalo de dezesseis horas.

nada melhor do que uma sequência imprevisível de oscilações climáticas pra fazer a sua saúde ir para o espaço.

mas a gente sobrevive. ou ié.

the smashing pumpkins - 'today'


* 26 de junho de 2006


faço de conta que sou dono de mim, quando na verdade eu pertenço a tudo que não tenho como controlar. o jogo de forças é desigual -- o que puxa do lado esquerdo do cabo de guerra não acaba com a brincadeira porque gosta de se exibir segurando a corda com uma só das mãos enquanto faz pose para as fotos. do lado direito, o trequinho -- tão mirrado, tadinho -- arregala os olhos para a poça de lama que o espera para acolchoar sua queda quando o puxão final se manifestar.

dizia minutos antes aquele camaleão travestido de folha de outono, criaturinha sábia e que pode exagerar na sinceridade dos conselhos: "não vai se iludir, trequinho. olha teu porte físico de vassoura. você se lembra muito bem daquele dia em que precisei me desdobrar em quatro pra te arrumar um cipó e te prender àquela árvore a tempo, antes que o pé-de-vento te levasse pra acampar no topo do aconcágua. e aquilo foi só um espirro de um elefante com alergia!

presta atenção. você sabe, eu nunca dei com a língua nos dentes -- e olha, eu tenho uma língua razoavelmente comprida."

o interessante nisso tudo foi perceber a transformação do semblante do trequinho, aquele vazio melancólico que se distorceu numa risada inocente, emprestando todo um inconveniente ar de comicidade à solene declaração do camaleão. "ainda mais razão pra mim então!", dizia o pequeno, estufando o peito e batendo neste com as mãos, um perfeito tarzan de palitos de dente. cinco pancadas e se pôs a tossir e a pedir ar. não prestara atenção na segunda parte do discurso, razão pela qual o discurso se quebra em dois parágrafos. do miolo dele, ninguém sabe.

estivera mais ocupado em criar mentalmente toda a grande batalha.

vendo o trequinho esturricado no chão, enlameado da cabeça aos pés, todo mundo se pressiona inconscientemente a sentir pena, pelo ridículo que ele parece passar. contudo, é formidável vê-lo levantar-se, contra todas as expectativas, aqueles olhinhos emitindo um brilho pontiagudo que denuncia um ímpeto dos mais violentos. lutar, como todo ato que requer tenacidade do instinto, confere uma aura de honra também, e às vezes até mais, ao perdedor.

nisso tudo, eu tenho a impressão de que o que eu não controlo e que me guia me experimenta em lutas que eu realmente não posso vencer, mas que mesmo assim eu não tenho vontade de evitar. eu nasço como fruto desse embate, eu sinto tentando nadar contra a maré, e mergulho minha razão na lama pra que ela mesma torne à superfície possuída pela emoção que puxa do outro extremo da corda. ah! explodo em centelhas, me refaço em meio a turbilhões mirabolantes: que venha o próximo combate.

mogwai - 'mogwai fear satan'


* 23 de junho de 2006


fazia questão de dormir com as cortinas levantadas e a janela aberta até a metade. gostava de perceber a brisa fria da noite contrastando com o calor que sentia por debaixo das cobertas grossas. ficava olhando em direção à noite escura, todas aquelas estrelas, porque o sono vinha de carroça num passo de cortejo imperial, se arrastando por entre estradinhas sinuosas e deixando de lado a idéia de chegar em definitivo, somente enviando mensageiros que por sua vez traziam mensagens que justificavam e pediam desculpas e solicitavam paciência.

pouco tempo depois, passava a pensar que não era exatamente o sono que era o lerdo da história. caminhava pela mesma estradinha, ouvidos atentos ao menor sinal de ruído, quando passa zunindo uma carruagem levada por magnânimos cavalos alados, fazendo um rasante de exibição para delírio do povo que se amontoava às margens do caminho de terra batida. saía então correndo atrás dela, gritando "volta aqui, volta aqueeeeee!". a carruagem em disparada, desmontando-se à medida que quebrava a barreira do som, transformando-se num borrão antes de esbarrar na teoria da relatividade e explodir em partículas de poeira cósmica. então só se ouvia a multidão cantando a euforia dessa performance pirotécnica, pedindo bis. eu sentava e me conformava, "outra dessas há de passar, então pulo de supresa, tomo o lugar do cocheiro, domo os cavalos: o sono é meu."

guillemots - 'through the windowpane'


* 19 de junho de 2006


eu preciso parar de escutar esses shows de radiohead. preciso.

bons e fortes ventos voltaram a soprar e trouxeram o frio de volta. e meu computador agora tem uma fonte que faz tanto barulho quanto o liquidificador que meu irmão usa para fazer a massa das panquecas de queijo que vamos preparar.

mas é um dia especial. e eu tô gripado, com ordens expressas de não sair de casa, e com o telefone aparentemente mudo. vou usar telepatia então, consegue me captar? e você, consegue também?

metric - 'dead disco'


* 16 de junho de 2006


e foi um espetáculo fumegante que a fonte do meu pc me proporcionou. faz uma semana. reza a lenda que ela volta consertada para casa hoje, então só resta acreditar.

enquanto isso, tenho os dez minutos que antecedem a primeira aula da manhã para aproveitar o laboratório vazio. falar em aula, acho que já estou atrasado.

interpol - 'obstacle 2'


* 09 de junho de 2006


e voltam as segundas. por que não fugir, não é? por que não, simplesmente, fugir.

em exatos cinco minutos eu saio correndo porta afora, tomo o rumo oposto do ponto de ônibus e vou procurar uma sombra debaixo da qual vou me sentar e ler.

mas é isso que a gente vê fechando os olhos. no fim das contas, o barulho ensudecedor dos ônibus vai mesmo acabar me levando à universidade e eu vou passar a manhã lá.

e tudo se fecha, eu pensando em fugir, o barulho me fazendo ficar, o atraso chegando de mansinho enquanto escrevo aqui e invento pra minha consciência uma desculpa leve pra justificar a preguiça de levantar da cadeira.

radiohead - 'videotape'


* 29 de maio de 2006


chuva! chuva! depois de vários dias, finalmente caiu chuva de verdade.

de rosto espremido contra o vidro vi um casal rodopiando em meio aos pingos todos, e vi também crianças pulando sobre as poças e espalhando água para todos os lados depois que a chuva acabou.

não era ainda dia de conseguir sair, era dia de ficar em casa e tentar evitar uma gripe que se aproximava.

tanto vento agora, uma mudança incrível de clima. era manhã de sábado e tudo estava abafado, ensolarado.

andar enrolado num cobertor dentro de casa me lembra de quando era mais novo e brincava de inventar histórias com meus primos. sempre que havia um rei, este exibia sua majestade através de trajes suntuosos. entre os adereços era obrigatória a presença da capa rica em detalhes de estampa, papel do cobertor.

e estou aprendendo a gostar de mel à força, tamanha a quantidade que mãe coloca nesse chá que ela prepara.

* the softies - 'hello rain'


* 21 de maio de 2006


mas mesmo assim a gente segue em frente, levanta, vai para o banho, troca de roupa, arruma o cabelo, come rapidamente, escova os dentes, empanturra a mochila com montanhas de folhas grampeadas umas nas outras e sai caminhando porta afora, em direção ao ponto de ônibus, ao centro, à universidade, à sala de aula.

ah, hoje a manhã exibe um aroma peculiar, fragrância de chuva vindoura. o ar se carrega com a umidade e pesadas nuvens negras cortam vagarosamente o céu azul.

vou arrastar os pés até o banheiro e lavar o rosto pela terceira vez -- percebo que hoje o dia vai ser de lentamente deslizar em direção a um torpor tranquilo na cadeira enquanto o professor debate a respeito de assuntos que eu vou reconhecer, mas vou distorcer e, internamente, trabalhar e tornar mais aprazíveis à imaginação.

* 18 de maio de 2006


a sensação inerente a se acordar cedo assim num dia frio é a de ficar ali mesmo, parado, embaixo das cobertas, pensando que não vale tanto à pena assim enfrentar um dia de aulas que não são promissoras.

* 18 de maio de 2006


naquele sonho, a estrada de terra batida serpenteava graciosamente por entre clareiras na vegetação alta, atravessando planícies para desembocar na beira de um rochedo que se via eternamente atacado por um mar raivoso. durante a viagem toda o grupo veio tocando músicas ao som de um violão e um violino e um xilofone, além do bater de palmas e do batucar nas pernas. durante a viagem toda o sol e a lua dividiram espaço no céu, o mesmo palco para dois astros, um céu de um azul límpido e outro de um negro estrelado no mesmo espaço, a divisão tênue feita numa zona onde dia e noite se mesclavam e se embaralhavam para criar um efeito de crepúsculo perpétuo. durante a viagem toda gaivotas acompanharam o ônibus, e dentes-de-leão adornaram o percurso jogando pétalas para cima, numa revoada esplêndida.

naquele sonho, marshmallows assavam sobre um fogo que também aquecia, porque o vento que vinha do horizonte era gelado. fogo e abraços, abraços e sorrisos com piadas e histórias e conversas e mais músicas. e vagalumes que iluminavam a parte escura do céu enquanto beija-flores flutuavam por sobre imensos ajuntamentos de flores sob a parte clara. e o grupo exatamente no meio, debaixo do espelho de crepúsculo, vivendo toda uma euforia enquanto o mar rugia e se atirava contra as pedras lá embaixo -- tanta era a violência que gotículas de água chegavam a molhar de leve parte do topo da encosta que, sem brincadeira, ficava a uns quinze metros acima.

naquele sonho, as férias nunca acabavam. e antes de entrarmos no ônibus para vivenciar o fantástico, eu chegava de uma viagem de alguns meses, na qual vim pedalando de um extremo a outro, carregando uma câmera pendurada no pescoço e uma mochila recheada de rolos de filme, trazendo dentro de mim uma vontade imensurável de chegar para ficar, nunca mais voltar, enfim, ser estar sentir.

* 07 de maio de 2006


um segredo? eu ainda me debruço no parapeito da janela da sala, esperando um pé-de-vento que me leve.

ah. sempre que acabo dormindo, eu fico com o braço aninhado por debaixo do travesseiro, pressionado pela cabeça. e volta e meia acordo no meio da noite, meio atordoado, com o braço completamente dormente. de vez em quando são os dois braços.

e sempre que viajo eu tento encontrar uma distração para me fazer esquecer de que estou dentro de um veículo automotor. da última vez eu contei o número de carros vermelhos que encontrava.

* 07 de maio de 2006


era noite, sem horário certo, a lua alta em quarto minguante pingando luz prateada por entre a folhagem densa das árvores que recobriam a alameda que levava até sua casa. esse buquê, eu fiz com flores que colhi ao longo do caminho -- lembro como era divertido quando subíamos em muros só para alcançar aquela flor tão bonita que se pendurava no galho mais inacessível. não sei, tanto quanto não sei o horário, o porquê de eu estar indo, assim, para uma visita. e o que vou dizer quando bater à porta? o que vou dizer se uma dessas frutinhas roxas que balançam ameaçadoramente sobre minha cabeça resolver cair e manchar minha camisa? como vou reagir quando você abrir a porta e dizer alguma coisa? ou pior, quando você abrir a porta e ficar me olhando, meio assustada, eu e um buquê de flores sortidas na mão? e quem sabe uma mancha roxa enorme e em processo de metástase no ombro da camisa?

eu sou assim, recipiente de certas paranóias, antro de perguntas que escapam a qualquer espécie de contexto. estou ali, tentando aliviar o constrangimento de não ter uma palavra sequer engatilhada criando mais constrangimentos que me levam a ficar ainda mais tenso. ciclo é vicioso. e eu fico olhando para cima, como que se pedisse encarecidamente às árvores para que não cuspissem em mim aquelas bolotinhas.

então foi sem perceber, submerso em hipóteses, que quase bati de frente na porta da tua casa. não fosse eu ter tropeçado no penúltimo degrau da escada e voltado à realidade.. isso ao menos me teria poupado o trabalho de tocar a campainha e ficar naquele instante de total ansiedade, longe demais para se cantar vitória, perto demais para simplesmente desistir e sair correndo pela rua, alucinado. mas antes de pressionar o botãozinho que repousava sobre a língua de um leão, eu ouvi risadas. e música.

caminhando até a janela de cortinas entrefechadas que ficava de frente para a rua eu pude vislumbrar corpos que se movimentavam docemente ao som de algo que eu conhecia. meu coração palpitava de forma tresloucada enquanto eu dedilhava os arquivos de minha memória em busca do nome da banda. percebi os olhos brilhantes, os sorrisos de canto-de-lábios. desviei o olhar, fixei o foco nas paredes, mirei sombras que oscilavam na superfície lisa. e displicentemente passei a correr o olhar das silhuetas dançantes para o chão coberto de pétalas para a luz que tremeluzia mais forte num canto específico da sala (imagino que fossem velas). era um espetáculo, e eu, o solitário expectador, fui cada vez mais percebendo que queria mesmo era o papel de ator principal ao lado da mocinha no palco..

..e me deixei cair de joelhos na grama molhada pela umidade noturna. arfava, longos haustos em que eu parecia não conseguir preencher os pulmões com ar o bastante. uma dor lancinante me atravessava o corpo, rachava meu coração em três. era suficientemente estranho ser bombardeado com a descoberta do que me levara até a porta da tua casa com aquele buquê de flores, e chegar, na mesma hora, à conclusão de que estava fadado a repetir.. ah, lá vou eu, meu passado, minhas paranóias. não era hora.

levantar foi difícil, escorreguei na grama gelada, quase fiz um estardalhaço desabando por sobre o canteiro montado no parapeito da janela. lá dentro, a música havia parado. evitei de olhar pela abertura na cortina, mas ouvi vozes, alguma coisa sobre 'idioteque' e uma barra de chocolate. fiz meu caminho de volta. peguei o buquê e o fui despedaçando, de leve, pétala por pétala, deixando uma trilha de planos recém-descobertos e tão logo abortados. então me veio o nome da banda daquela música que eu havia reconhecido: kings of convenience. não que eu tenha prestado muita atenção -- o nome veio e foi, de relance, enquanto estava mais preocupado em virar o pescoço e olhar pela última vez para sua casa, a janela da frente irradiando luz de velas e romance de sonhos.

aliás, eu nem reparei na hora, mas apesar das minhas súplicas, as árvores da alameda realmente acabaram pintando meu ombro esquerdo de roxo.

* 27 de abril de 2006


as silhuetas dançantes na parede preludiavam uma noite de encantos. ao tremor da luz de velas, o frio das noites secas do outono estalando nas folhas que farfalhavam ao luar, braços enroscados nos corpos unidos por um movimento levemente desajeitado de pernas. e todo meu cuidado para não sair pisando nos teus pés ou me desequilibrando quando, por brincadeira, tentávamos um passo mais ousado, mais técnico.

sorriso de criança e uma leveza fascinante. e eu, que nunca me imaginava assim, girava, e ficava encantando quando você se desvencilhava de mim para fazer alguma coisa que só você conseguia, com aquela sua inconfundível graça. ou começava a rir quando tentava imitar e saía cambaleando pela sala, só pra cair confortavelmente por cima do sofá ao fundo.

as pétalas espalhadas pelo chão, que eu cuidadosamente colhi e coloquei nos bolsos ao longo do meu caminho de volta do estágio na escola de inglês; o aparelho de som ligado num volume mínimo -- só pra servir de acompanhamento, de definidor de coreografia -- tocava aquela coletânea de músicas legais que tínhamos preparado juntos quando, faz uns bons anos, nos encontramos para estudar física (você sempre foi boa demais com isso) mas acabamos conversando sobre como a música era importante pra gente. e se era noite antes, agora começava a madrugada, a lua em quarto minguante brilhava em prata, as velas derretiam lentamente sobre os pratos de cristal, as chamas serpenteavam nos pavios e faziam ondular as silhuetas dançantes na parede.

ah, quando o cd acabou, e paramos pra que você fosse tirá-lo do aparelho e colocar radiohead ("em 'idioteque', quem melhor imitar o thom ganha uma barra de chocolate, combinado?"), não pude deixar de imaginar que não havia lugar melhor para se estar. i'd rather dance with you, dizia a última música do cd que terminou, mas eu sabia que realmente gostaria de fazer e compartilhar tudo contigo.

* 27 de abril de 2006


minha coluna é um farol que irradia apenas dor.

o frio vem chegando, e nem vem tão de mansinho, mas às vezes é sorrateiro. você percebe isso quando vai se deitar completamente desprotegido e acorda embrulhado, do pescoço à ponta dos pés, num cobertor, sem se lembrar como ao certo o cobertor fora parar ali, visto que ele estava guardado na parte mais inacessível do armário.

e uma coisa é certa, ao menos uma dentre todas: benditos eram os dias frios em que a máquina de lavar louça ainda funcionava (faleceu tão nova, coitadinha). tenho a impressão de que a água vai ficar impossivelmente gelada nos próximos dias, e vou precisar voltar a inventar moda e esquentar água na chaleira para lavar a louça.

enquanto isso, a gente aproveita os arroubos de chuva que rompem a película de melancolia que recobre esses dias tediosos.

* 20 de abril de 2006


as únicas lacunas que realmente não me agradam, e que não possuem significado, são as criativas. sabe, quando você fica olhando para o papel, e para o lápis, e de volta ao papel, fazendo desenhos mentais com as pautas da folha, depois busca alento olhando pela janela, então você volta e analisa as paredes com minúcia, cada rachadura ou falha na pintura, depois volta à folha..

..e tudo o que vê é um simples par de parênteses. o que abre, no canto superior esquerdo da folha; o que fecha, no canto inferior direito. e tudo entre eles, a superfície gelada do papel, uma tundra estéril.

eu tinha cunhado uma metáfora para descrever esse processo com mais clareza, mas acabei me distraindo quando percebi um exército de formigas que marchava saindo de um espaço que há entre minha escrivaninha e a parede.

fui ler o idiota, então.

* 12 de abril de 2006


aquele espaço todo entre uma palavra e outra (você vai perceber, e só para não achar estranho ou maluco é que digo que) foi porque eu realmente não consegui encontrar as palavras que dissessem tudo aquilo que você representa.

então deixei uma lacuna. mas não a interprete como um vazio. pelo contrário, interprete-a como o infinito, como a tua presença em minha vida em todo seu inefável valor.

aquele vazio, eu vou preencher com o novo idioma que estou criando, só para poder sintetizar vocábulos que façam jus a você.

* 05 de abril de 2006


desde que o frio chegou, eu toda tarde vou procurar o assento mais iluminado no parque para sentar ao livre e ler um bocado. o vento vem sendo cordial, soprando de leve, então eu consigo ficar por lá sem aquele probleminha de ter o vento virando as páginas do livro pra mim.

em compensação, teve uma terça aí em que eu precisei sair de casa carregando pedras nos bolsos, sob pena de, caso não o fizesse, sair voando pela cidade. o voar realmente não seria mal, posto que eu fosse capaz de controlar a direção para a qual eu gostaria de ir. o problema seria chegar ao chão são e salvo, evitando pousos de emergência e afins.

se de agora em diante é só alegria, com o frio pouco a pouco tomando conta, eu realmente não sei. mas vou aproveitar, lendo garcía márquez enquanto o sol se põe ao fundo, tomando um chocolate quente gostoso e comendo pão de queijo enquanto escuto smoosh, assistindo a brilho eterno de uma mente sem lembranças pela trocentésima vez debaixo das cobertas quentinhas, tentando escrever à medida em que o vento frio entra pela fresta da janela e sussurra, sem parar, "o outono chegou, lalala.".

* 30 de março de 2006


eu fiz de conta, sabe? naquele dia, foi um feriado que caiu numa sexta, não lembro bem qual o motivo do feriado, mas o que geralmente conta é o ser feriado, né? enfim, nós decidimos ir fazer um programa diferente, pegamos um ônibus e fomos a um lugar qualquer. o ônibus estava praticamente vazio, e os solavancos por causa das imensas crateras no asfalto eram doloridos. ônibus velho, sem estofamento nos bancos, uma das portas automáticas veio se debatendo ao longo da viagem toda, e a outra custou para abrir quando resolvemos que era hora de descer.

mochilas repletas de mantimentos, nós descemos, antes certificando-se de que poderíamos voltar para casa pegando a mesma linha de ônibus nesse mesmo lugar. então a primeira coisa que fizemos foi tirar uma garrafa vazia da mochila, colocá-la no chão e girá-la. atentos observamos, até que a garrafa parou e o gargalo apontou a direção que deveríamos seguir. então fomos.

logo chegamos ao pé de um morrinho, e entramos na mata, que nem era muito densa. foi aí que eu fiz de conta. fiz de conta que sabia para onde estava indo, mesmo sem saber direito. quer dizer, não era tão difícil, o caminho era bastante aberto, e logo demos de cara com uma espécie de trilha, mas isso não impediu que nós passássemos pelo mesmo tronco caído de árvore umas três vezes. e eu sei que você reparou, você estava se divertindo à beça, dando risadinhas leves toda vez que algum marco na paisagem mostrava que já havíamos passado por ali antes. você me deixou guiando e foi só seguindo, ciente de que não estávamos realmente perdidos -- voltar era tranqüilo, nós havíamos deixado alguns vestígios enquanto caminhávamos, e a própria trilha descia sem obstáculos. o problema era seguir em frente, porque parecia que a trilha tinha sido desenhada para confundir. sempre dois ou três caminhos, só um deles levando adiante, os outros empurrando de volta ou para o tronco caído, ou para a cachoeirinha de águas límpidas, ou para a frondosa árvore repleta de pássaros cantores.

foi com um pouco de insistência que chegamos ao topo, num belo início de tarde de céu tingido de azul com nuvens esparsas, estendemos a toalha quadriculada por cima de uma pedra que tinha toda pinta de mesa, espalhamos a comida e tudo o mais e comemos, conversando, rindo do que tinha acontecido até ali, da minha cara de tacho toda vez que eu voltava a ver o tronco caído. juro, já estava sentindo como se ele fosse um velho conhecido, um membro da família, e já pensava em fazer o piquenique ali com ele mesmo.

e ficamos por lá, respirando o ar puro, ora conversando, ora cantarolando, ora simplesmente suspirando a vontade de não voltar para as aulas, para o trabalho monótono, para a loucura do tráfego das sete da noite, pelo menos por uns dias.

de lá de cima podia se avistar uma prainha isolada, encrustada nas formações rochosas das redondezas. mas não descemos. o caminho até lá parecia ser mais íngreme, complicado, e também o tempo tinha passado incrivelmente depressa e já começava a dar sinais de que queria escurecer. de fato, olhando no relógio vimos que já passava das cinco e meia da tarde.

descemos então, feito crianças, quase correndo, revezando-nos na liderança da corrida, um perseguindo o outro. quando chegamos ao tronco caído, paramos e nos curvamos em reverência, nos despedindo daquele que nos tinha feito companhia por uma boa parcela de tempo em nossa empreitada. e saímos correndo novamente, rindo até parecer que nossas cabeças iam estourar. chegamos ao ponto de ônibus, esperamos, recobramos o fôlego. o ônibus da volta era ainda mais velho do que o da ida.

exaustos, adormecemos encostados um no outro.

toda hora que paro para pensar na minha descrença ao ver o tronco caído ainda mais uma vez, me vem uma vontade de rir sem parar. mas foi um belo dia de fuga. precisamos empregar nossa confiável garrafa mais algumas vezes, não acha?

* 25 de março de 2006


sabe, eu fingi rir na hora em que você se levantou pesarosa da cama, arrastando as pantufas de tigre através do piso de madeira, deixando um rastro lustroso como indicação do caminho que seguia, como que se dissesse sem palavras para que eu me levantasse, jogando os lençóis para cima, e corresse para te abraçar e não te permitir ir.

eu inventei aquela descontração toda quando você arrumou os pratos na mesa e dividiu o queijo naquelas fatias tão finas que só você consegue cortar sem quebrar. eu sorri por cima do ombro enquanto observava os ovos e tomava conta para que não passassem do ponto no cozimento. você colocou sobre a mesa o pão integral, a jarra de suco, algumas frutas, virou-se para afagar nosso gato peludo e gorducho e em nenhum momento levantou o olhar de encontro a meu sorriso.

talvez eu nem fosse realmente eu enquanto tomávamos vagarosamente o café da manhã, o sol entrando calmo através das persianas entreabertas, a brisa sacudindo as folhas daquela árvore do quintal, a grandona, mais velha do que eu e você juntos. aquela que tem o balanço pendurado no galho mais resistente, e em que florescem aquelas pétalas rosadas. lembra, pra comemorar nosso aniversário de relacionamento, eu sempre te faço uma coroa com elas, porque eu me recordo de ter colocado uma dessas florezinhas no teu cabelo no dia de nosso primeiro encontro a sós. dia chuvoso, mãos dadas ao sabor do vento numa corrida sem freios ladeira abaixo em direção ao parque, dança sob os trovões ribombantes, primeiro beijo..

..e você me pediu para eu te passar o doce de pêssego, que estava convenientemente posicionado na minha metade da mesa. quando te entreguei o pote, nossos dedos se tocaram.. e você irrompeu num choramingar silencioso. e eu.. eu.. o nó que se fez em minha garganta foi demais para eu suportar, e eu engasguei. larguei o doce sobre a mesa, sujeira sem tamanho, cacos de vidro espalhados por sobre a toalha, e corri para te abraçar. e chorar contigo.

agora sim, eu voltava a ser eu.

e quando, sim!, quando o tráfego de palavras começou a se desengarrafar dentro de mim, você gentilmente se desvencilhou de meu abraço e dirigiu-se de volta ao quarto. fiquei inerte, de joelhos no tapete, sentindo que devia explodir numa torrente de pedidos umedecidos em amor visceral, porque sempre fora assim, mas sabendo que não conseguiria espocar mais do que meros murmúrios roucos. então você voltou a sala, trazendo sua bolsa favorita a tiracolo e puxando com o braço esquerdo o carrinho que apoiava a mala maior, mais pesada, que desde o princípio só havia sido usada quando viajávamos juntos.

ah, eu sei, garoto covarde! só virei o pescoço lentamente, para acompanhar teus passos através da sala e em direção à porta de saída. e você resmungava, faltam vinte minutos, tenho de chegar com ao menos dez de antecedência, dá tempo de comprar os comprimidos anti-enjôo na farmácia.

e a uns passos da porta você parou e virou e me encarou. o rosto vermelho, meio inchado, a maquiagem leve já toda borrada. músculos enrijecidos, lábios trêmulos, o cabelo curto e reluzente. eu levantei o braço para acenar. quero dizer, quis levantar! mas ele não me obedeceu. e minha cara patética estatelou-se no chão. eu era um boneco de pano. e sentia que as costuras que uniam meus membros ao torso estavam sendo dolorosamente desfeitas enquanto eu era mantido acordado, justamente para vivenciar toda a experiência. então eu fundi minhas forças e num relance de arrebatamento, um instante fugaz como a passagem de um cometa, eu me senti grande. e berrei por você, quando você já girava a chave do outro lado da porta, me trancando do lado de dentro.

te chamei pelo apelido que eu dei pra você e que é só nosso, de mais ninguém.

quando você se virou, foi com os olhos transbordando lágrimas, para me dizer naquela característica voz embargada de saudades antecipadas que iria me escrever ao menos uma vez por dia. e eu disse que responderia. e você me pareceu aliviada, quase que esboçando um sorriso. e eu também, também aliviado, também quase sorrindo, soprei um beijo em tua direção, e você fez um biquinho com os lábios para recebê-lo, como nós sempre fizemos. deixou em cima do sofá um bilhete e então você foi.

da sacada do segundo andar, acenei uma última vez, e você retribuiu. e entrou no táxi. e desapareceu de vista, apoiada no banco, olhando para mim pelo vidro traseiro, um semblante penetrante que eu sei, posso enxergar em tudo aquilo que me cerca.

assim que você se foi, peguei o bilhete (que continha teu novo endereço), corri para a escrivaninha, apanhei um pedaço de papel e a primeira caneta que me surgiu (era uma cuja tinta era vermelha e parecia purpurinada). comecei então a escrever a tua primeira carta.

* 21 de março de 2006


quando você se desenhou, em traços leves, legais e simpáticos na minha tela, eu já me perguntava qual a magia que de ti emanava. o pincel simplesmente pulou de minha mão e saiu correndo através do quadro, sangrando cores indescritíveis, prismas radiantes que deixavam rastros de pétalas de flores. em um instante, eu era o enlevo, levado pelo doce farfalhar das folhas de outono que teus pés espalhavam. foi assim que você adentrou, singela em tua majestade, a varanda da casa que eu pintava a óleo.

lá dentro, o mundo desbotado, o sépia-clichê das memórias entregues ao decorador para serem usadas como papel de parede, tudo ganha novos ares, uma respiração resfolegante, um olhar reaceso e reabastecido. de cômodo em cômodo você ensaia teus passos de dança e é sim, como magia, tremenda magia, que o oxigênio entra em combustão e tremeluz antes de explodir numa chuva de confetes espelhados e papéis coloridos. do quarto à cozinha, do corredor ao jardim. as flores se abrindo, o céu chovendo sorrisos.

fino e cortante, o vento se anuncia num assovio que começa displicente, mas que ganha potência conforme se arranja numa única rajada após passar dividido em múltiplos sopros atráves das densas copas das árvores. potência e melodia também -- parece que a natureza, tão encantada quanto eu, resolveu prestar homenagem a tua arte usando o vento como orquestra selvagem e regendo uma melodia cativante, com acordes que se prendiam uns aos outros numa espécie de longo assovio.

e eu parado, observando, atento. os pássaros cantando ao longe, a respiração travada num suspiro que nunca se dissolvia. ao som daquela melodia você disparou os últimos passos, acenou de leve com um sorriso brilhante no rosto e então, num turbilhão de fagulhas, desapareceu. ficou para trás só o assovio intermitente, a música que a natureza fez para você, e que eu engarrafei cuidadosamente e trouxe para fora do quadro comigo.

na hora do aceno de despedida, eu pensei em mil e uma coisas para te dizer. eu quero ficar a teu lado e realizar meu melhor para te fazer feliz. quero ser teu até que as estrelas despenquem do céu, até que as águas dos rios sequem, até que os poetas gastem todas as rimas. mas tudo ficou em pensamento. eu estava perdido em tua chama, que queimava como o sol. e tudo que eu sabia fazer era murmurar teu nome, senti-lo ressoar dentro de mim e finalmente conseguir gritá-lo quando você foi embora.

deitado na cama, olhando para o teto, eu me pegava pensando no que deveria fazer com a garrafa, com o assovio melódico preso dentro dela. parecia ter morrido. eu o havia engarrafado pensando que ele sempre cantaria para mim as lembranças daquela doce bailarina, mas na garrafa não se via nem uma espécie de vibração.

então decidi abri-la.

em meio ao amanhecer, com o céu começando a ser tingido dos primeiros tons de laranja, fui ao parque, sentei-me na grama, respirei fundo e removi-lhe a tampa. para meu espanto, o assovio ressurgiu e tomou conta de tudo ao redor. aquela melodia reapareceu! e em meio às lembranças, a todas as sensações que emergiam, eu nem percebi que batia os pés de leve e cantarolava, de improviso, "ela me tem com nada a ganhar e nada mais a perder.. e você se entrega.. com ou sem você.. eu não posso viver.."

deitei na grama, abri os braços e inspirei fundo o ar da manhã recém-nascida. ela estava agora em todo lugar. nem precisava fechar os olhos -- a bailarina estava em todo lugar. e a melodia retinia em minha alma, a melodia feita para ela, as frases soltas de improviso e sinceridade, todas as emoções que depois se transformariam numa canção. naquela canção. a tua canção. com ou sem você, com ou sem você..

adormeci na grama do parque, com o vento gelado da manhã acarinhando minha face e com os primeiros raios de sol desenhando mosaicos misteriosos nas águas ondulantes do laguinho a minha direita.

* 16 de março de 2006


o incrível da vida real é poder misturar a ela ingredientes imaginários e sair com um resultado estranhamente narcótico, um mundo brilhante onde aquilo que é e aquilo que pode ser se encontram, convergem em direção a um único alvo, ao mesmo ralo.

eu tenho todos esses passos de dança perfeitamente ensaiados em minha mente, muito embora eu seja um desastre, uma verdadeira catástrofe quando o assunto é balançar o corpo de forma ritmada, seja como for. mas tudo se encaixa, tudo se executa de forma minuciosa e precisa, cada rodopio e salto, quando eu ouço a nossa música e lembro do sofá que fica no meio da sala e que fazemos mudar de lugar em meio a corridas ao redor do recinto e cauterizantes olhos-nos-olhos.

tudo se transforma de modo tão maravilhoso que essa qualidade fugaz, esse prazer efêmero que a imaginação geralmente possui ganha um prazo de validade esticado, muitas vezes até infinito. porque, você sabe, imaginar pode deixar aquele gosto amargo no fundo da garganta quando desce o último gole, o relativo vazio que é ter o virtual ao alcance de um fechar de olhos.. e o real a quilômetros de distância.

por isso a mistura, o semear o solo que se tem com híbridos, transgênicos dimensionais que unem o melhor do que você tem a sentir. toda a alegria de poder compartilhar com quem se ama tudo o que se passa com você, seja como for.

eu, particularmente, não consigo viver só em um dos mundos. meu mundo não é só aqui, muito menos só lá. ele é os dois, dois que são um, porque se unem sem costura, num tecido fluido e inseparável. e podemos ser a felicidade apesar da distância, porque em tudo nós vivemos juntos, e tudo converge em direção ao encontro. sem desespero, sem pressa, apenas corre, naturalmente.

* 06 de março de 2006


ao pé do ouvido vai o sussurro derradeiro, a confissão desesperada de quem com os braços desenlaça e deixa ir, mas com todos os outros músculos faz um esforço sobrenatural para não desabar nos próprios joelhos e implorar por mais uma noite. e depois um novo dia. uma sucessão de novos dias. um leque de semanas, que continua a se expandir e a revelar novos detalhes da estampa mesmo quando já parece ter esgotado sua elasticidade. enfim, o infinito.

a romantização da despedida, na porta do ônibus, perto da escada que leva aos assentos dos passageiros. a bagagem empilhada, malas bonitas de cores exóticas. o bilhete na mão direita; a esquerda servindo de lenço, o dorso molhado pelas lágrimas que caem tímidas, uma após a outra. lábios ressecados, o efeito dos dias de umidade baixa, respiração ofegante e um pouco ruidosa. o motor do ônibus ronca, a impaciência do motorista aflora. e a indecisão, a vontade de proceder como nos filmes. jogar a passagem para o alto depois de picotá-la, correr para o bagageiro e retirar as malas, dizer "eu vou ficar" e simplesmente isso, ficar.

os interesses batem, as necessidades também. mas as obrigações, elas chamam. e os passos lentos levam ao segundo andar do veículo, a uma poltrona acolchoada e reclinável junto a uma janela impossível de se abrir, os olhos que não se desgrudam até a partida, quatro órbitas que são duas, duas pessoas que são uma só, uma existência cujas metades só se vêem separadas pela geografia. porque em todo resto estão conectadas, inseparavelmente unidas, naquele pacto vulcânico que os sentimentos fazem entre si quando descobrem a reciprocidade que desabrocha irreverente, surpreendente, cativante.

* 28 de fevereiro de 2006


aquele café-da-manhã, os bolinhos de milho com recheio de creme de chocolate, os sanduíches com presunto e queijo e tomate no pão integral, o suco de maracujá tingindo de amarelo as delicadas tacinhas de cristal. a louça na pia é só efeito colateral -- você sabe que não sou fã de lavar talheres e pratos, mas você também não é, e não custa o esforço, então pode deixar que eu lavo.

tem esse dia cinza pela frente, domingo de chuva e vento, algumas caixas de dvd empilhadas na estante do quarto, chamadas não-atendidas no celular, a agenda com telefones de amigos esperando para ser aberta e vasculhada e cutucada, o aparelho de som derramando notas de uma guitarra de outra dimensão e timbres de uma voz que canta em símbolos. e o ventilador gira, empurrando poeira para cima e para baixo numa espiral que não se cansa de dançar.

sabe, eu fiz uma canção para você, e marquei o tempo de cada estrofe com um tamborilar despreocupado de dedos. a voz meio sonolenta, dormência de um domingo onde o tempo caminha desleixado, tropeçando nos próprios cadarços e retardando o próprio anoitecer. hoje não vamos ter estrelas visíveis, mas eu preparei um céu delas em cartolina preta para colar no vidro da janela do quarto.

e quando você voltar do supermercado com os pães e o leite e as bananas e o chocolate, vai encontrar a pipoca feita e a tv só esperando o comando para o filme começar.

a limpeza da casa? deixa pra mais tarde.

* 19 de fevereiro de 2006


no fim das quase quarenta horas sem dormir, eu senti dedos leves me acariciando as têmporas, e uma voz macia que vinha de longe emitia doces ondas.

não é por nada, falo mais por precisar comentar, mas o colchão era duro; o travesseiro, fino demais; o som gritava as letras dos proibidões numa repetição sem fim. eu acordei com os músculos rígidos, a coluna em cacos, a cabeça latejando no compasso de mil tambores cerebrais, mas certamente que o sono foi revigorante. como poucos.

no momento em que senti o abraço daquela voz, foi como se tudo que havia de físico no mundo se dissolvesse, e eu tivesse sido levado para dormir nos braços da presença mais bela.

e eu acordei em meio a uma tormenta física, mas sabendo que fazia tempo que minha alma não se sentia assim, tão leve, tão pouco desgastada, tão cheia de vida a ponto de querer voar.

então levantei da cama de um pulo. claro, logo senti uma fisgada na coxa e também os efeitos das queimaduras de sol. mas ainda assim, o sorriso que saiu nem precisou ser ensaiado -- aliás, quem me viu dormindo disse que ele pouco saiu de meu rosto enquanto eu estava inconsciente.

* 13 de fevereiro de 2006


Flor, dia e cor

O amarelo atravessou o limite da consciência
Para resgatar o que caía no esquecimento
Velejou sobre ondas ferozes
Para encontrar o fim do arco-íris

Girassol das pétalas douradas
Florescendo no topo da mais alta colina
Há símbolo mais forte que esse?

Pensei em parar para ver
A banda passar
Tocando suas adoráveis melodias

O vermelho escapou da tentação
Espalhou em pétalas sua ardente inocência
Para ladrilhar a estrada sinuosa
Com paixões e ecos de corações pulsantes

Pensei em parar para ver
O sol nascer
Trazendo em seus raios uma nova realidade

O amarelo pensou em se unir ao vermelho
Por curiosidade testar casamento

-- "Que perfeita sincronia!"
Surgiu o laranja, entoando amores
Para pintar em aquarela o céu do crepúsculo
Premiar com espetáculo o fim de mais um dia

O amarelo passou por entre falhas na cortina
Ignorou as paredes e foi em direção
Ao infinito que se anuncia no horizonte

Quem sabe para espalhar calor
Quem sabe para mais casar
E trazer mais cor

Girassol que nunca se deixa levar
Pelas sombras que insistem em invadir
Espaço e provocar tragédia

-- "Gira, não cai em armadilha
Gira para nunca ficar sem vida"

O amarelo deu volta no universo
Salpicou com luz o céu noturno
Abriu sorriso no rosto triste
Rosto da alma, espelho do mundo

Foi só parar para ver
No topo daquela colina

O girassol trouxe o sentimento perfeito:

-- "Coração há de girar buscando o sol
Para que nunca sombra faça casa
Daquilo que não lhe pertence!"

* 08 de fevereiro de 2006


interlúdio.

só chove nessa cidade. só se faz chover.

pelo menos a louça acabou. vamos entrar em fevereiro com força total.

\o/

* 01 de fevereiro de 2006


das marcas todas que você me vem deixando, talvez a mais contundente seja a cicatriz do crescente, a representação da lua cortante no alto das madrugadas, madrugadas que contigo são a expressão sintetizada da perfeição.

não posso deixar de fechar os olhos agora e fixar o coração em todas as palavras, os sentimentos declarados, a força das torrentes que nem os diques mais robustos poderiam conter. e toda forma de sorriso que se poderia imaginar, toda forma de sorriso que também escapa à imaginação.

por agora, a esterilidade do desencontro só é quebrada pela presença maciça de ti em mim. se é humanamente impossível passar um instante que seja sem se pensar em alguém, isso só pode significar que esse alguém é tanto parte essencial de você quanto você mesmo.

* 26 de janeiro de 2006


hoje eu acordei sem dormir, o ventilador no teto fazendo um barulho ensurdecedor, tão ininterrupto e invariável que parecia se mesclar ao ambiente, e fazia todo o resto ser silêncio.

hoje eu vasculhei minhas gavetas procurando perguntas, tentando achar aquelas indagações todas que se costuma fazer quando a certeza em algo é tanta que você mesmo passa a colocar barreiras aqui e ali, para se dar ao luxo de duvidar da própria convicção.

eu não encontrei. e isso só pode ser coisa boa, coisa de estar centrado e focado e não permitir brechas.

pintei de verde as paredes de meu quarto, para combinar com a camisa e com a rede. e o ventilador girando, a mesma algazarra interminável, o dia abafado dentro de casa pede circulação de ar que o exterior não pode dar, porque lá fora chove.

fiz os triângulos menos circulares que minhas mãos trêmulas poderiam conseguir, triângulos coloridos e brilhantes como as estrelas, e vou usá-los para ladrilhar teu caminho até o colchão que coloquei no chão, no alto do prédio, para que quando a chuva parar e o céu abrir nós possamos ver a lua e conversar sobre o mundo, o universo. sobre o quão gostoso é ovomaltine, ainda mais como milkshake, sobre como bananas são frutas deliciosas, sobre como as frases mais bonitas são aquelas faladas na premeditação que cabe em meio instante.

da próxima vez em que eu for tentar dormir, não vou fechar os olhos em antecipação, mas vou saborear o espetáculo de dança que todas as noites se realiza no teto de meu quarto.

// voxtrot - 'wrecking force'

* 24 de janeiro de 2006


olhando ao redor, admirado, capturando de relance a correria de um passageiro que parecia prestes a perder seu vôo, passos desengonçados de quem carrega uma mala mais pesada do que normalmente conseguiria: as duas mãos ancoradas à alça, a gravata xadrez esvoaçante chicoteando-lhe ora o rosto, ora o torso. e ele passa, gritando impropérios, parando no caminho para checar o bilhete, chutando depois a mala, por não conseguir mais levantá-la do chão.

são corredores que desconheço, um salão que me vem à mente quando fecho os olhos, quando os aperto até sentir que as pálpebras nunca mais vão se abrir. um salão grande, com luminárias espargindo luz branca, celeste. vidraças imensas. como cenário externo uma longa pista, faixas entrecortando o asfalto, desenhando letras e números e tão-somente riscos. árvores balançando à distância, nuvens carregadas de chuva fina no céu.

e eu lá, focando as portas que se abrem e se fecham, os transeuntes apressados, a massa homogênea comendo salgados nas lanchonetes, lendo o jornal enquanto beberica um café quentinho. e o tempo passa. tique-taque vindo de relógios que não consigo ver. e passa. eu espero, dedos entre dedos, subindo e descendo, enrolando o cadarço que serve para apertar a cintura da calça. passa.

e de repente pára.

quando entra, o tempo pára. fascinante. o mundo pára. e eu me levanto. é ela, é ela! e eu.. eu só me levanto. fico parado. quero correr, mas.. só me passa pela cabeça tudo o que tenho pra dizer, o que quero fazer, um turbilhão, um, dois, três, a tempestade perfeita se revolvendo dentro de mim.

pois eu respiro fundo e começo. caminho. apresso o passo. titubeando. sorrindo. brilhando. ao encontro dela. ela. que é os meus pensamentos, meus sentimentos. e paro.

e com minha mão direita eu pego a tua mão e entrelaço-a em meus dedos. e com a mão esquerda eu puxo a cordinha que desliga o abajur do mundo. e então, em meio ao tamborilar da chuva, no silêncio do infinito do encontro, com só a luz que de ti emana iluminando a nós dois, eu te envolvo num abraço forte, eterno.

e sussurro ao pé do teu ouvido: "eu te quero, eu quero você pra mim."

// saybia - 'the day after tomorrow'

* 23 de janeiro de 2006


eu devia saber dos planos sobre não olhar para trás, sobre tentar a sorte atravessando aquela avenida movimentada sem observar se há carros indo ou vindo ou caindo do céu. no fundo eu sabia, como sabia também que, fosse como fosse, eu nem precisaria fechar os olhos em angústia. a corrente do rio metálico se distorce em meio aos teus passos, se estrangula em espasmos violentos, mudando de curso toda vez que atinge o redemoinho de teu brilho. e do outro lado você acena, sorridente, e o sinal de pedestres abre e então eu vou também.

por isso eu olho, mesmo que com aquela apreensão contida, preocupação com o risco hipotético.

no fim das contas, o risco é o meu. risco de o sinal abrir no meio da travessia, risco da enxurrada me levar para onde-eu-não-sei. mas correr o risco é válido se for para chegar à outra margem.

então eu respiro fundo e apresso o passo.

// destroyer - '3000 flowers'

* 20 de janeiro de 2006


eu saio por aquela porta. sabe, aquela que fica no teto, próxima ao ventilador, aquela que volta e meia me custa um dedo ou dois porque as hélices são luminosas e cortantes e eu sou desatento. eu fico desenhando na parede as constelações que você me ensinou a ver. órion, câncer, milkshake de ovomaltine, e depois paro para observá-las e esqueço de que com o botãozinho pressionado as lâminas giram.

mas não é para não voltar. fui colher as flores que havia plantado faz algumas estações. não a tranque pelo lado de dentro, a porta, porque minha chave, eu a deixei cair no fosso do elevador. e só na semana que vem eu vou poder buscar, porque é só no quarto domingo do mês que permitem a entrada de seres humanos lá. tem de ver a quantidade de coisas que se acha -- eu já vi até passagem de ônibus espacial para a lua.

esse ramalhete que vou fazer, ele vai vir com pétalas transparentes, e vou passar de vendinha em vendinha, de quitanda em açougue procurando as cores mais bonitas pra que você mesma possa depois pintar as flores como você quiser. eu sei que você adora pintar, colorir, desenhar, criar, sorrir.

e quando eu voltar, se você quiser, a portinha pode ficar aberta, pra deixar um pouco do aroma pluvial entrar e inebriar os quadros de natureza-morta e fazer daquela cestinha de vime com frutas dentro um convite a um piquenique no alto de uma colina verdejante.

* 17 de janeiro de 2006


vinte dias depois. em rude matemática.

e as folhas em branco me saúdam. o verão também, mas ele, ele não é sutil e amigável. o ar é brasa, partículas fumegantes. e as frases, elas nem vêm, sabe? cansadas, cansadas.. mas se minha mente é um deserto, de certo há um oásis perdido na imensidão das terras ermas, e é isso que vou tentar achar.

enquanto isso, eu vou cantar a beleza de sentir a presença em tudo que existe.

// the strokes - 'soma'

* 09 de janeiro de 2006


pelo lado de fora, as janelas choram. e, pelo de dentro, elas transpiram.

resistência à gripe não é o meu ponto forte. compreender avaliações esquisitas de professores doidos quanto a sua análise de dado livro também não é, e eu fico aqui, qual é o motivo de ela ter colocado essa observação no final da correção, se o meu texto todo é baseado justamente no ponto que ela disse que eu não cobri com minha resposta? como eu disse.. ah.

tenho pitadas de música na ponta de meus pincéis. é uma tinta de comportamento imprevisível, certamente que é, mas sabe, não vai funcionar, não vai. lembro-me dos experimentos anteriores, da calça tricolor, da camisa com consistência de papelão; e até de coisas mais antigas ainda, do tempo em que a professora de educação artística me pedia para largar o pote de tinta guache e voltar ao trabalho com caneta hidrocor, porque as mesinhas deviam continuar a ser verdes e o chão devia conservar o padrão rígido do cimento nu.

além do mais, meus bonequinhos pareciam-se com tudo, menos com bonequinhos. aliás, essa deve ser uma característica intrínseca da minha arte plástica. se eu quiser criar algo, é só não querer criar aquilo. mas vai ficar estranho de qualquer jeito.

"mas você sabe lidar com artes mais abstratas", dizia ela, a professora. bem, eu gostava de sobrepor e translocar triângulos e criar imagens a partir deles, e depois pintá-los de cores diferentes.

trinta e sete e meio. mas esses remédios, eles não costumam funcionar.. mas acho que vou arriscar, ver se a cabeça ao menos deixa de latejar.

* 17 de dezembro de 2005


dia desses eu conversei com o silêncio. ele, ele porque o substantivo foi classificado como masculino, ele foi gentil o bastante para vir se sentar a meu lado quando eu terminava de ler ítalo calvino. estava até fechando o livro, e começava o ritual de ruminar a leitura, fazer as palavras irem e voltarem, brincar com a arquitetura das paisagens mentais que havia construído durante o processo.

quieto, tranquilo, olhando ao longe, procurando um ponto azul no mar de nuvens que ondula e se revolve de forma vagarosa. senti aquela voz doce embalsamando a atmosfera, uma voz composta de todos os elementos exceto o som. e foi uma conversa serena; sequer nos entreolhamos, ficamos cada um focando o seu próprio alvo.

mas eu não pude me conter e acabei deixando escapar um suspiro leve, uma risada velada, abafada com uma mão por sobre a boca, quando o silêncio se virou para ir embora. sem me mostrar o rosto, arrumou sua capa por sobre o ombro, ajeitou a boina, fez um flutuante sinal com os dedos entreabertos, pisou sobre o cadarço desamarrado do tênis esquerdo com o direito e, pronto, ao levantar o esquerdo desequilibrou-se e levou ao chão toda a porcelana antiga de minha mãe que estava exposta numa estante de madeira estranhamente carcomida pelo tempo -- se é que o tempo é capaz de cavar minúsculos buracos tão redondos quanto aqueles.

e o silêncio levantou-se, pediu solenes desculpas com um encolher de ombros e foi para a porta, mancando, ficando gradualmente verde de raiva e finalmente explodindo em barulho longe de minha visão, mas não de minha audição. ou da audição do planeta -- é sensato pensar que o silêncio não tem consciência da magnitude de sua capacidade de produzir sons.

um estridente palavrão foi o que eu ouvi.

seguido de buzinas e motores de carros, do amassar de papéis de bala, de incessantes toques de celular, de vozes de pessoas impacientes, pedindo para eu apressar o passo, porque o motorista estava aguardando e estava ficando nervoso e constantemente pressionando o pedal do acelerador, naquela tentativa de intimidar os pedestres, e que se eu não fosse entrar no ônibus, que pelo menos eu deixasse de ser doente e abrisse caminho para quem estava não interessado em se comportar como um vegetal decorativo plantado no meio do concreto, mas sim queria simplesmente enfrentar o engarrafamento das 19.

// elliott smith - 'between the bars'

* 12 de dezembro de 2005


o sabão, ele faz a pele das minhas mãos rachar. vou poupar todo mundo de descrição pormenorizada do ritual cuidadoso que é o lavar de louças, assim como também não vou fazer uso de uma metáfora trazendo comparação entre minha pele ressecada e o solo estéril de regiões desérticas porque.. realmente não conseguiria com que fizesse tanto sentido assim.

mas é meio esquisito fechar as mãos e sentir os pedaços todos subindo uns em cima dos outros. parece que a pele vai se arrebentar.

a minha idéia era pintar um bonequinho, assim de palitinhos mesmo, colhendo flores e com uma bolha de pensamento.. mas a bolha de pensamento ainda não tem nada dentro. talvez outro desenho, talvez algumas palavras.. e uma letra de música embaixo. mas o que eu devia fazer mesmo era escolher a letra de música antes, e desenhar baseado nela.

e o quarto parágrafo fica dedicado a dizer que, é, eu sei pintar tão bem quanto eu sei dançar.

// architecture in helsinki - 'the cemetery'

* 11 de dezembro de 2005


sábados costumam ter um gosto inconfundível, um sabor exótico que mescla expectativa e conformismo. as coisas podem ser diferentes, diferentes do que foram ao longo da semana; aquele cotidiano gradualmente insuportável de pequenos ciclos que parecem nunca ter uma alternativa escondida, uma carta na manga, uma mensagem subliminar. aquele sempre-a-mesma-coisa que se salva pela presença constante de pessoas importantes e que fazem tudo valer à pena.

mas e o sábado é a grande chance de se fazer algo realmente legal com essas pessoas todas. sábado é o verdadeiro tudo-ou-nada. vamos ver filmes? vamos fazer um piquenique? vamos acampar na praia? podemos usar aqueles exercícios de física e também aqueles manuais enormes de redação acadêmica e claro, por que não, também aqueles textos de crítica literária sobre allan poe e aquelas provas (terríveis! medonhas!) sobre hawthorne e sua letra escarlate como combustível pra fogueira. se dependesse do meu material, a fogueira duraria alguns bons dias.

qualquer coisa, podemos ir caminhar também. e caminhar, assim, daqui até aí, e depois pra bem longe. quem sabe eu não aprenda a andar de bicicleta antes, e então nós vamos pedalando, sentindo o vento no rosto, fechando os olhos e abrindo os braços nas grandes retas da rodovia e principalmente nos declives, escutando o vento, que como lâmina corta um pedaço do espaço e o fecha numa barreira de isolamento acústico, uma caixinha onde só escutamos os nossos sorrisos e nossos pensamentos, todos eles misturados em um só.

* 10 de dezembro de 2005


eu nem sei, sabe? olhando ao redor e vendo o silêncio se mover com uma paciência exemplar e um rangido mecânico, eu me pergunto uma porção de coisas, algumas delas desconexas, algumas até paranóicas; e só me pergunto mesmo, ponto de interrogação empilhado em cima de ponto de interrogação, enquanto o silêncio arrasta suas correntes de algodão e fecha a porta atrás de mim com um gesto delicado, que nem o mínimo soprar de vento provocou.

engraçado como os banhos de chuva não enferrujam nossas engrenagens. muito pelo contrário. e a chuva que caiu foi espessa, sequer foram gotas, eram jatos d'água despencando mesmo. durou só o suficiente para eu cantar menos de uma música, mas mesmo assim. oooh! get me away from here, i'm dying e o tempo congelou-se num pedaço de paraíso encharcado e de fragrância suave. e antes mesmo que eu pudesse chorar ao final (porque, afinal, eu sempre choro aos finais), a chuva atenuou-se num leve respingar, e eu segui meu caminho para casa, entrando ensopado no ônibus.

* 06 de dezembro de 2005


então fui caminhar, em meio ao vento mesmo, sabe? cantar em meio ao vento, vento tão forte que abafava minha voz, fazia dela um murmúrio, e mesmo a plenos pulmões eu parecia apenas estar sussurrando.

sussurrando palavras não minhas, as minhas não, elas empalidecem quando colocadas lado a lado com, com.. há letras de músicas tão bonitas, não? eu confesso que volta e meia escuto as músicas só pelo instrumental e pela interação da voz com o ritmo e as cordas e as batidas; mas que não dá pra esconder a admiração com certas letras, ah.. realmente.

e o dia hoje amanheceu violeta. e agora o céu tem duas facções, a lilás, mais em cima, já cedendo espaço à laranja, que vem pouco a pouco tomando conta de tudo.

eu adoro a noite. mas não há momento mais deslumbrante num dia do que o interlúdio, esse estado indistinto que precede tanto a claridade quanto a escuridão. pois é, né? poderia ficar olhando e olhando..

* 04 de dezembro de 2005


eu nunca tive idéia do que responder aos que me perguntavam, "o que você vai ser quando você crescer?".

grande; bem, é verdade que espichei um bocado, além da conta até. grande era a resposta que eu costumava dar, mais por inocência do que por sarcasmo ou piada.

e a verdade é que hoje, de acordo com esse conceito doido de tempo e suas regras, eu completo vinte e um anos e.. vai lá saber se essa pergunta ainda tem uma resposta diferente daquela que é óbvia. para mim, claro, porque eu espichei.

* 01 de dezembro de 2005


o calor que faz é insuportável. nem durante a madrugada temos trégua. o vento parou. em algum canto por aí, em alguma alfândega aos pés das montanhas ao sul; provavelmente deixou a carteira em casa, ou ficou retido porque deixou o passaporte em cima da escrivaninha, enquanto colocava a gravata e saía apressado janela afora porque perdera o horário por conta de uma madrugada de sono cuja consternação fora compensada por um sonho magnífico quando finalmente a tranquilidade estendeu seus lençóis macios e fez o mundo se calar.

um céu ausente de cores. e tudo para fora da janela é preto agora, e eu esticando o braço faço-o afundar no escuro e perder-se completamente de vista. é como mergulhar num poço de piche, esticar o braço para fora e sentir a substância viscosa tornando o movimento difícil, vagaroso, pesado.

para noites como essa, com essa força esquisita que faz até o tempo se locomover lentamente, é que eu colei uma figura enorme de um céu estrelado com uma lua bonita no tabuleiro de futebol de botão que tenho aqui, o único pedaço de material grande o bastante pra cobrir a janela toda e fazer, magicamente, com que o céu ganhe pequenos olhos de diamante.

* 01 de dezembro de 2005


essas pernas que me conduzem até à porta cambaleiam um pouco. falta sono, talvez.

mais uma vez eu olhei pela janela e vi o sol dar lugar às nuvens. vamos subir, escalar, vamos moldar algumas nuvens, colocá-las em palitos coloridos e mergulhá-las em chocolate derretido. aquele chocolate que a gente também põe sobre o sorvete, que depois endurece e fica gostoso.

e então a gente faz um piquenique. debaixo de uma árvore frondosa e florida. e a gente espera a chuva começar a cair. e depois vai brincar de roda embaixo da chuva, cantando todas as músicas legais que nós conhecemos. e daí a gente espera o sol se pôr, em meio à chuva, que faz com que a luz se espraie infinitamente em minúsculos pontos das mais variadas cores.

recobrei um pouco do equilíbrio. vamos sair para respirar um pouco de ar puro? condicionadores de ar acabam me provocando, eventualmente, uma dor de cabeça insuportável.. em você também?

* 25 de novembro de 2005


muito vento.. e as noites sem estrelas e sem lua não são tão bonitas. eu imagino se daí você está presenciando uma noite mais bonita do que a minha..

* 24 de novembro de 2005