<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008</id><updated>2011-11-24T19:09:17.048-02:00</updated><category term='diálogos'/><title type='text'>mesas e cadeiras</title><subtitle type='html'>a casa do irrelevantemente fantástico.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>31</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-5582293883755752515</id><published>2010-07-05T02:43:00.000-03:00</published><updated>2010-07-05T02:43:21.473-03:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='diálogos'/><title type='text'>dos pedaços que a gente desperdiça</title><content type='html'>-- não faz isso, não joga essa casca de banana fora!&lt;br /&gt;-- por quê? vai dizer que você tem alguma utilidade pra isso?&lt;br /&gt;-- tenho sim! pra sua informação, ela serve muito bem como complemento pra massa de bolo.&lt;br /&gt;-- e o que mais vai nesse bolo de sobras? bagaço de laranja, semente de maçã?&lt;br /&gt;-- engraçadinho. pois saiba que bagaço de laranja também serve pra mesma coisa. e eu costumo comer tudo quando chupo laranja.&lt;br /&gt;-- você é doidinha. e faladeira também. vem toda recicladora aí, reaproveitando alimentos fresquinhos, mas quando o assunto é comer um saboroso restê d'ontê, já fica toda alterada.&lt;br /&gt;-- mas também! eu lá vou gastar meu refinado paladar num feijão temperado com geladeira?&lt;br /&gt;-- mais fácil investir numa saladinha de folhas de morango e alimentar a lata de lixo com o macarrão à bolonhesa em cuja quantidade você exagerou ao cozinhar no almoço, certo?&lt;br /&gt;-- mil perdões por eu saber que as propriedades nutritivas dos alimentos não se conservam por tanto tempo e geralmente se perdem à medida que são requentados.&lt;br /&gt;-- e eu também devo desculpas por achar que pratos tão gostosos merecem destino melhor do que o lixo só porque foram acondicionados por mais de 6 horas num lugar que não nosso sistema digestivo.&lt;br /&gt;-- quer dizer que você comeria um risoto ao molho de fungos-de-uma-semana, mas não um bolo de casca de banana.&lt;br /&gt;-- olha como você é exagerada. disse 6 horas, não 6 dias. eu nunca que seria capaz de comer algo que estivesse sorrindo de felicidade pra mim por eu lhe ter proporcionado a liberdade depois de dias trancafiado na geladeira.&lt;br /&gt;-- mas se eu dissesse pra você que fiz essa torta com bagaço de laranja, você deixaria de comer na hora.&lt;br /&gt;-- assim como você certamente deslamberia os beiços caso soubesse que essa lasanha que jantamos agora foi meu almoço de hoje.&lt;br /&gt;-- mas pode ficar tranquilo. até porque a torta nem sequer de laranja é, é de maracujá.&lt;br /&gt;-- já a lasanha é lasanha mesmo, mas não se preocupe, é novinha em folha. os ingredientes, inclusive. tenho a notinha com o horário da compra pra comprovar.&lt;br /&gt;-- não sou tão fresca assim.&lt;br /&gt;-- é, nem eu. o que eu faço com essas cascas de banana?&lt;br /&gt;-- pode jogar fora. perdi a vontade de fazer o bolo pra você, você nem ia comer mesmo. e essa lasanha, o que faço com ela?&lt;br /&gt;-- pode se livrar dela também. fiz pensando em você, mas você praticamente nem comeu agora, e nem vai comer depois que eu sei.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-5582293883755752515?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/5582293883755752515/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=5582293883755752515&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/5582293883755752515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/5582293883755752515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2010/07/dos-pedacos-que-gente-desperdica.html' title='dos pedaços que a gente desperdiça'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-5795401635491745135</id><published>2010-06-20T21:05:00.001-03:00</published><updated>2010-06-20T21:08:45.480-03:00</updated><title type='text'>brilho eterno</title><content type='html'>ele olhou pela janela e viu o sol despencando em direção à terra, lento e imponente, levando consigo o brilho do dia. esticou o braço para fora da janela, como se quisesse coletar uma última centelha de fogo para iluminar a escuridão que logo ganharia forma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;virou para trás e a viu parada junto à porta, cabelos longos recobrindo metade do rosto, braços cruzados avolumando os seios, encostada displicentemente com o ombro esquerdo contra a moldura da porta, naquela posição típica de quem observa uma cena e parece não acreditar muito no que vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o olhar dele meio que a atravessou, e ela ficou um pouco indignada com tamanha indiferença da parte dele. ela ficou ali parada, sem mover um músculo, enquanto ele se virou novamente para a janela, colocando para fora as mãos num esforço incrível de tentar estender seus próprios músculos além do limite humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;no que ele se virou novamente, reconheceu a presença dela no local. ela tentava esconder um sorriso, os olhos brilhavam com uma curiosidade intensa, o corpo relaxou quando percebeu que ele finalmente se dera conta de que ela estava lá. ele sorriu pacientemente, ela retribuiu. e ficaram naquelas carícias gestuais pelo que pareceu um longo tempo, até que ela olhou furtivamente para o relógio e ele despertou do transe induzido pelo choque de sorrisos: estava ficando tarde, estava escurecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ela não se moveu quando ele virou novamente e retomou a tarefa de se alongar em direção ao sol, agora com uma sofreguidão que se demonstrava na forma como ele se colocava na ponta dos pés, e se apoiava perigosamente no parapeito da janela numa tentativa de aproveitar ao máximo todo o limitado espaço físico oferecido. ela só ficou ali, e fechou com força os olhos, e juntou as mãos, entrelaçando os dedos até quase cortar-lhes a circulação. parecia rezar, parecia desejar ardentemente que algo acontecesse, concentrar suas forças junto às dele na realização de um milagre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;antes de reabrir os olhos, teve dificuldades em desatar as mãos, dormentes, que depois formigaram com violência. sentiu um calor intenso emanando de algum canto no quarto, uma luz indubitavelmente celestial fulgurando e anulando a noite que já se instalara lá fora. perdera a noção do tempo, do quanto ficara naquele estado de entrega espiritual. sentiu a cabeça dele roçando-lhe o ombro desencostado, um sussurro que lhe pedia para abrir os olhos. ela os abriu lentamente; nas mãos em&amp;nbsp;concha&amp;nbsp;dele, a primeira coisa que viu, repousava uma fonte de luz inesgotável, um caco do astro-pai. ela ergueu a cabeça e fitou-o longamente, lendo-lhe no semblante uma infinita satisfação. abriu o maior dos sorrisos quando ele, em uma fala entrecortada por longas inspirações devido ao cansaço, disse,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"pode desfazer as malas, meu amor. eu consegui o sol. nosso dia nunca vai findar, então você não vai precisar ir embora quando anoitecer."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-5795401635491745135?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/5795401635491745135/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=5795401635491745135&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/5795401635491745135'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/5795401635491745135'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2010/06/brilho-eterno.html' title='brilho eterno'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-904476129604602576</id><published>2010-06-11T03:15:00.000-03:00</published><updated>2010-06-11T03:15:28.697-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>quando pegou o ovo na geladeira, estava decidido a fazer um omelete. até havia separado os ingredientes adicionais que costumava colocar na fritura: tomate, queijo, presunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;poucos passos até o fogão foram o bastante para fazê-lo mudar de ideia. isso e a preguiça absurda de voltar até o armário ao lado da geladeira para pegar a frigideira na qual a comida não grudava. em cima do fogão estava a panela pequena, e ele decidiu fazer ovo mexido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em meio a um rompante de tola traquinagem, teve a ideia de mexer o ovo antes de quebrá-lo na panela; presumidamente para apressar o processo de preparação da comida. sacudiu, agitou, sentiu a substância lá dentro se remexendo e se chocando contra as paredes do ovo, rachou a casca na borda da pia, partiu a casca com cuidado para não derrubar pedaços na mistura que iria se espalhar no fundo da panela que logo seria colocada no fogo brando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;qual não foi sua surpresa ao ver que, no momento do rompimento da casca, não escorreu aquela gosma viscosa habitual, mas despencou na superfície de aço inoxidável, de cabeça para baixo e com um baque surdo, um pintinho que logo se levantou desorientado e se pôs a piar sem cerimônia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-904476129604602576?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/904476129604602576/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=904476129604602576&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/904476129604602576'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/904476129604602576'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2010/06/quando-pegou-o-ovo-na-geladeira-estava.html' title=''/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-5729445903277256852</id><published>2010-06-10T02:52:00.001-03:00</published><updated>2010-06-10T02:54:09.469-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>era uma vez um garoto que adorava planejar. na sua cabeça hiperativa ele antecipava cada passo, previa cada acontecimento, imaginava cada hipótese, investigava cada desdobramento. era com fervor que ele viajava antes mesmo de embarcar nos veículos, visitava cidades antes mesmo de pôr seus pés nas calçadas ladrilhadas, tirava fotos de atrações turísticas antes mesmo de posicionar a câmera na busca pelo melhor ângulo, provava da culinária típica antes mesmo de o aroma irresistível deixá-lo com água na boca. devaneava por prazer, fantasiava por talento nato; era um projetista virtuoso das realidades vindouras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;certo dia, sentado na cama, de mochila pronta, em meio a seus delírios paisagísticos, passeava pelas ruas arborizadas de um recanto do interior, já ocupando cada futura hora com inúmeras atividades. no entanto, esqueceu-se do essencial: para cumprir com sua agenda virtual, precisava embarcar no ônibus da excursão e estar de verdade no tal lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mergulhou tanto nos seus planos que não realizou as ações. perdeu a hora, não subiu no ônibus, não acompanhou a excursão, não esteve no local que tão avidamente imaginara de uma forma que em não muito correspondia com a realidade, e não ficaria sabendo disso por conta própria, tendo de se conformar com o paradoxo de uma solitária jornada inexistente em oposição a um alegre passeio coletivo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-5729445903277256852?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/5729445903277256852/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=5729445903277256852&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/5729445903277256852'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/5729445903277256852'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2010/06/era-uma-vez-um-garoto-que-adorava.html' title=''/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-8334210914565125875</id><published>2010-05-26T00:11:00.003-03:00</published><updated>2010-05-26T00:28:24.402-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>num certo fim de semana, de céu azul e vento acalorado, eles esperavam ansiosos pelo ônibus da excursão que os levaria para passar um fim de semana no celebradíssimo hotel-fazenda da região.&amp;nbsp;a viagem era algo sonhado por todos os alunos daquela escola -- nenhum deles tinha uma família que pudesse pagar as diárias exorbitantes do local, ou que estivesse disposta a investir sua suada renda em dois dias de lazer campestre --, então era totalmente justificada aquela algazarra que se fazia nas costas do portão da escola, devidamente fechado para evitar que a turba mirim se dispersasse bairro afora em sua explosão de energia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mais justificada ainda se tornava por uma série de outras razões. o passeio era uma espécie de recompensa, pois só se realizava com as turmas de oitava série (hoje nona, quem sabe décima daqui a uns anos); passava-se ao longo de todas os grupos na escola os rumores acerca das loucuras mil que se aprontava lá, da maravilha que era estar livre dos pais por meros dois dias. era um passatempo garantido contar os dias, as horas que faltavam para o dia santo, e conforme se aproximava a data, a ansiedade dos felizardos ia se tornando cada vez mais irreprimível, até eclodir, curiosamente, num silêncio solene e venerável quando, na sexta da alforria, chegavam os carros dos pais trazendo os futuros viajantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;era uma cena excepcional, a única manhã em que o pátio se silenciava, as bolas de futebol não rolavam. toda vez que desembarcava alguém com uma malinha de viagem ou uma mochila diferente da habitual, cabeças giravam, entreolhavam-se, pareciam até reverenciar por meio de uma mesura desajeitada. eram os escolhidos, aqueles que partiriam para a grande jornada das lendas e mitos passados de geração em geração, e sabe-se lá com que relíquias e conhecimentos e experiências voltariam de sua expedição rumo à terra prometida. era como se fossem astronautas percorrendo a distância entre o comando central da missão e a plataforma de decolagem do foguete, cercados por uma multidão admirada, perdida entre louvar os heróis que representam um planeta e se imaginar&amp;nbsp;no lugar deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;todos os meninos e meninas da oitava perfilavam-se na entrada da escola, na escadaria que dava acesso ao pátio interno, esperando dar a hora religiosamente marcada para que pudessem se dirigir ao portão oeste, que ligava a parte externa da escola ao estacionamento. lá, sentadinhos nos bancos exclusivamente colocados para essa ocasião, aguardariam a chegada do ônibus ainda dentro do território escolar, e os portões só se abririam quando o veículo parasse e o motorista descesse, autorizando o embarque.&lt;br /&gt;era lá que eles estavam agora, em sua angustiante espera, batendo perninhas, roendo unhinhas, coçando cabecinhas, se concentrando ao máximo para não desobedecer a ordem expressa para permanecer no lugar, sob o risco de não mais integrarem a excursão em caso de rebeldia. havia uns quatro funcionários da escola por ali; um deles guardava o molho que simbolizava a liberdade, os outros três andavam por entre as fileiras de bancos, para lá e para cá, só observando atentamente, chamando a atenção de leve, parando para papear um pouquinho com um ou outro que perguntava coisas típicas do momento: que horas eram, quanto faltava, por que demorava tanto, vai ter lanche na viagem, fica muito longe, quero ir no banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o do molho era quase um guru espiritual. sempre que as chaves tilintavam, a criançada parava o que estava fazendo para fitá-lo com voracidade. o homem baixinho e gorducho esticava o pescoço o máximo que podia para ver além dos muros em direção à avenida principal, na esperança de ver o ônibus chegando. na negativa, regredia a sua posição de tartaruga e encolhia-se, olhando com pesar para todos, que suspiravam e então retomavam o que quer que estivessem fazendo. o ritual se repetia algumas vezes ao longo do período de espera, e passou a reincidir ainda mais naquela manhã, porque não demorou tanto assim para a hora marcada chegar e passar:&amp;nbsp;o ônibus estava atrasado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quando as crianças perceberam o movimento confuso de cabeças dos adultos, olhando seus relógios de forma desconfiada, não tardaram a compreender o que acontecia. foi aí que se deu aquela algazarra do começo, as vozes manhosas, os lamentos antecipados, o furdúncio de sonzinhos agudos, exclamações irritadas. haviam esperado oito anos por aquele momento, oito anos era demais, e não estavam tão dispostos assim a conceder licenças para atrasos com aquilo que significava&amp;nbsp;a realização de uma fantasia antiga. não admitiam que pudesse acontecer logo na vez deles, quando o ônibus nunca atrasara nas outras edições.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de dentro das saletas de aula o público já espichava seus corpinhos delgados pelas janelas, a fim de ver o que se passava. já era hora de o ronco ensurdecedor de motor ter preenchido o ar e feito vibrar as vidraças e os lápis das carteiras. já deviam ter escutado o motorista bonachão e sua frase de sempre, os pelinhos do seu bigode se agitando com o ar que saía de sua boca ao verbalizar o convite à alegria, "Vamos lá, criançada, Tio Horácio chegou para o passeio!". por onde andaria Tio Horácio e seu rosto rechonchudo e bigodudo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por detrás da molecada exaltada surgiu uma figura esguia, trajando uma longa saia florida comportada e uma blusa simples de algodão com mangas curtas. carregava um semblante meio pesado, faces empalidecidas, e ao primeiro som de sua voz todo mundo se aquietou num montinho humano de tristeza. era a diretora, eles reconheceram na hora, e notícia boa não podia ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e não era. Tio Horácio ficara doente, não poderia vir buscá-los, e por ter acontecido de forma tão inesperada, não houvera tempo de organizar um plano B, nem havia tempo hábil para isso naquele momento. trocando em miúdos -- isso ela falou olhando diretamente para os monitores, reservando os miúdos para a rapaziada, embora eles já soubessem do que se tratava --, o passeio teria de ser adiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;todo mundo murchou. nem bem esperaram a diretora terminar de falar, levantaram-se com suas maletas e marcharam, cabisbaixos, de volta ao pátio principal da escola. a criançada que se estendia salas de aula afora parecia sinceramente compadecida da cena, e bateu palmas para tentar animá-los. não seria agora que sairia rumo às descobertas revolucionárias essa missão -- os astronautas voltavam ao centro de comando, derrotados pelo imprevisível; o foguete não decolaria até segunda ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pouco a pouco, a ordem foi restaurada, e a escola voltou a funcionar normalmente, com todos os alunos novamente empoleirados em suas carteiras e prestando atenção nas explicações dos professores, à exceção do grupinho tragicamente desolado na entrada da construção, todos amuados, mudos, desiludidos, esperando seus pais. ganhariam um dia de liberdade contida em suas casas, ficariam imaginando como teria sido a viagem, a parada para o almoço, a chegada em outra cidade, a descida no hotel, a folia por todo aquele terreno, os mergulhos de piscina, cavalos e pedalinhos, comida de fazenda e tudo o mais, deprimidos na espera pela data incerta em que realizariam, finalmente, seu sonho de longa data.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;imaginando, imaginando. já estavam imaginando enquanto ali sentados, e começaram a brotar uns sorrisos aqui e ali, uns raiozinhos de sol espantando o chuvisco, e timidamente um começou a perguntar a outro sobre o que faria, como deveria ser, o que será que tinha, e então esse respondia que devia ser assim, que faria tal coisa e que era certeza que tinha aquilo outro lá, e aí um lá do fundo retrucava que não, que era desse outro jeito, e ele podia jurar pela morte da mãe dele porque um amigão tinha ido no ano anterior e descrevera tudo nos mínimos detalhes, e logo uma mais à frente discordava, afirmando que vira fotos na câmera de uma amiga e que a realidade não tinha nada a ver com isso. e se puseram a discutir, a confabular, a inventar, a planejar, a se unir em torno de uma coisa que antes era só um escape individual para cada um, e praticamente erigiram seu próprio hotel-fazenda ali, e saíram pulando pelo pátio, descrevendo suas atrações, montando cavalos imaginários e passeando em pedalinhos vaporosos e comendo bolos de fubá etéreo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;à medida que os pais iam chegando para recolher sua prole, não acreditavam no que viam. haviam jurado, ao sair de casa, que encontrariam seus filhos arrasados, que precisariam não medir esforços para alegrá-los durante o fim de semana indesejado em casa. e olhavam pasmados, boquiabertos, ao vê-los divertindo-se a valer de um jeito como há muito não faziam, ali em pleno pátio, só entre eles, brincando todos verdadeiramente juntos e sem nenhum intermediário, nenhum brinquedo, nada. mais impressionante era nenhum deles querer ir embora, tamanha era a felicidade em que se encontravam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;no fim das contas, nem precisaram de hotel-fazenda algum. reuniram-se pais e filhos numa roda gigantesca na quadra central de futebol e combinaram passar o fim&amp;nbsp;de semana todos juntos, acampando numa praia que ficava a alguns quilômetros de distância da escola. então foram embora, sorridentes, assoviando, batucando nas barrigas, alegres de morrer, prontos para o melhor fim de semana que o imprevisível poderia proporcionar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-8334210914565125875?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/8334210914565125875/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=8334210914565125875&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/8334210914565125875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/8334210914565125875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2010/05/num-certo-fim-de-semana-de-ceu-azul-e.html' title=''/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-401254909448582958</id><published>2009-01-27T01:34:00.004-02:00</published><updated>2009-11-02T08:29:18.366-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>-- e aí, gostou do rodízio?&lt;br /&gt;&lt;div&gt;-- é, tava bom. deu pra saciar meu desejo de pizza. mas eles sabem como ser exagerados, hein?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- ô se sabem. "70 espetaculares sabores!", dizia o folheto. leda miragem. conferi uns 20, no máximo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- isso levando em conta que uma parte deles era variante de um sabor já visitado.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- pois é. banana com canela, banana com gemada, banana com chantilly, banana com chocolate, banana com coração de galinha..&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- o céu é o limite pra criatividade do homem. e, convenhamos, banana vai bem com uma porrada de coisas. omelete de banana é um pratinho simples, porém imperdível.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- banana, tudo bem. mas batata palha? que diabos foi aquela pizza de batata palha?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- reaproveitamento de ingredientes ao extremo, provavelmente. quem inventou deve achar estar arrasando, mas eu penso termos testemunhado um indício irrefutável do apocalipse gastronômico.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- pizza de batata palha só não é pior do que uma hipotética pizza de chuchu.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- pizza de chuchu é a chave que abre as portas para um mundo de sofrimento eterno. guarde essa idéia pra você, viu?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- pode deixar. eu tenho uma porção delas. que tal uma pizza de yakisoba?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- claro, nada mais exótico do que misturar culinárias chinesa e italiana. não tem um espaço pra completar com um chucrutezinho?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- não tinha pensado nisso! sabia que você tem instinto pra coisa? bora lá fazer uma sociedade, vamos ganhar uma grana preta realizando os sonhos obscuros de gente que deseja comer pizzas hereges.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- lógico, não perderia por nada no mundo essa chance de destruir uma mesma proporção de sonhos de pessoas que acreditam na existência de alguma coisa no mundo semelhante a ordem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- verdade. qualquer pessoa que provasse uma pizza de yakisoba com chucrute sairia do restaurante apostando todas suas fichas no caos.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- então. olhe bem fundo nos meus olhos e prometa que não vai deixar nenhuma dessas idéias anárquicas sairem de sua cacholinha. nunca.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- prometo. a pizza de batata palha é o limite. e tenho dito.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-- ótimo! agora que garantimos a paz mundial, precisamos comemorar. que tal um cinema?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-401254909448582958?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/401254909448582958/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=401254909448582958&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/401254909448582958'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/401254909448582958'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2009/01/e-ai-gostou-do-rodizio-e-tava-bom.html' title=''/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-2069435329521396271</id><published>2008-07-18T01:11:00.003-03:00</published><updated>2008-07-18T02:46:27.366-03:00</updated><title type='text'>em 18 de julho de 2008, madrugada.</title><content type='html'>quando bebia refrigerante fora de casa, ele sempre usava canudinho. não importava onde fosse, o seu fiel escudeiro alongado estava lá, um tubinho de plástico customizado com adesivos, irreconhecíveis de tão antigos. aliás, outra coisa que ele sempre fazia era soprar com toda força para fazer o líquido borbulhar e assim expulsar o gás ali contido -- para ele, a graça toda não era sentir a língua formigar, a garganta coçar; negócio mesmo era saborear o xarope sem ter a experiência sensorial obstruída por detalhes gasosos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ninguém sabia ao certo de onde tinha vindo tal canudo, mas era certo que possuía um inestimável valor sentimental. rapaz não se desgarrava do objeto plastificado, levando-o sempre consigo dentro de um estojo para óculos que ele forrou com algodão, um estojo avermelhado que ele carrega no bolso externo de sua pasta universitária. ele, a pasta, o canudo: uma trindade mundana, inseparáveis vértices que simbolizam um cotidiano construído com atividades das mais desinteressantes nos últimos dois anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;daquela lanchonete de esquina, ele bem se recordava enquanto bebericava seu melado de cola, havia visto uma porção de coisas normais acontecerem todos os dias. brigas de trânsito das mais variadas, homens paquerando mulheres, mulheres estapeando homens, casais conversando sobre a educação dos filhos, amigos compartilhando suas vidas sexualmente ativas, pessoas fugindo da chuva e se protegendo da ventania, pessoas que nunca se viram antes cantando abraçadas. um mundo de relações habituais que era parte do que ele era, parte do que ele havia se tornado: um observador, limitado pela própria inoperância. sua vidinha era uma partícula apassivadora, como ele mesmo costumava pensar -- e ria, baixinho, ao constatar que fazia sentido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ria nervoso, meio que de vergonha também, mas isso ele não constatava. limitava-se a admirar seu dom para brincadeiras envolvendo jargões gramaticais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;essa sucessão de acontecimentos triviais dos quais ele nem fazia parte era o que constituía sua existência. bizarro concluir que você existe em meio a algo de que você não participa ativamente. uma presença adjunta, que talvez adicione atributos ao significado geral das coisas, mas que é oficialmente desnecessária para sua compreensão principal. ele passava distante, ao fundo, efetivo como os rolos de vegetação seca que anunciavam as cenas de duelo nos faroestes de outrora. as pistolas disparavam por todos os lados, mas ele não tinha mãos para atirar também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;só tinha mãos para mexer o canudo em círculos no seu copo, e segurá-lo enquanto sugava as últimas gotas de refrigerante. aquele barulho irritante despertou-o de seus devaneios. mais uma tarde indiferente ia passando. a mesma gente na rua, carregando sacolas de supermercado, levando mochilas nas costas, empurrando malas com carrinhos, conversando sobre o inverno que nunca parece chegar de verdade. depois de lavar seu canudo, depositá-lo no estojo e guardar este na pasta, pagou pelo refrigerante e saiu para sentir uma tarde ainda fresca, com cheiro de oportunidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas esse aroma ele deixou passar com um levantar de ombros. olhou no relógio; quase dezesseis. precisava voltar para a aula, uma vez que o professor não tolerava falta de pontualidade. quem sabe no dia seguinte ele finalmente tomasse coragem para deixar de ser sujeito oculto -- já antecipando que não, que amanhã as coisas teriam o gosto de hoje, que por sua vez mantinham o gosto de ontem, aquele gosto esquisito de algo que não se sabe se está vencido, mas que se prefere acreditar que não, só por comodidade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-2069435329521396271?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/2069435329521396271/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=2069435329521396271&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/2069435329521396271'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/2069435329521396271'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2008/07/em-18-de-julho-de-2008-madrugada.html' title='em 18 de julho de 2008, madrugada.'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-737996818675491778</id><published>2008-03-31T00:36:00.001-03:00</published><updated>2008-03-31T00:42:10.977-03:00</updated><title type='text'>interpol - 'public pervert'</title><content type='html'>-- me descreve como é, assim? essa sensação?&lt;br /&gt;-- é um desconforto que acalenta. acho que é assim que sinto.&lt;br /&gt;-- isso não tem um valor descritivo muito prático, sabe..&lt;br /&gt;-- queria o quê, que eu usasse camões? até renato russo já fez isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele é bem desse jeito: estranhamente brincalhão, mesmo quando o assunto em questão é uma antítese da comédia. o movimento das pernas, batendo desconcertadas contra o banco, baquetas de um baterista que estuda sem metrônomo; os dedos entrelaçados, indicadores subindo e descendo em círculos, agulhas tecedoras de um suéter feito de linha de oxigênio; a voz delgada e tranquila, de variações harmônicas, uma praticante de yôga que passa de posição a posição com incrível leveza e flexibilidade. cada músculo retesado sugere um esporte diferente, cada suspiro exala uma atividade intelectual variada; é justamente essa hiperatividade congênita que confere um ar humorístico a tudo o que ele faz. impossível observá-lo e não o imaginar fazendo mil coisas ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas naquele momento havia algo que destoava dessa simpática caricatura que tanto cativava seus amigos. seus olhos, eles não reluziam, sequer giravam incessantemente em busca de um alvo no qual pudessem se assentar. eram dois faróis apagados apontando na estrada banhada pelo anoitecer que era sua face. o opaco que dominava seu semblante desdenhava da energia presente no resto do corpo, e anunciava: no interior desse crânio jaz não um homem, mas uma aparição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;assustava vê-lo naquele estado de torpor. o outro cutucou-o com força usando o cotovelo, buscando despertá-lo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- cara, nesse seu estado, eu poderia te colocar ali no calçadão pra trabalhar como estátua viva.&lt;br /&gt;-- é curioso como de vez em quando eu me pego pensando nisso tudo, e por mais estranho que seja, eu sempre reconheço que era o que restava, o que precisava ser feito.&lt;br /&gt;-- mas ainda assim, né?&lt;br /&gt;-- é, exato. que bom que entende. eu não saberia explicar o porquê de eu ainda querer isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;então sorriu sinuoso, escorregadio como as palavras sem muito lastro que havia acabado de falar. a arte da conversa anafórica era uma cláusula do contrato invisível que regia a amizade dos dois: a transparência verbal não parecia ter lugar numa relação onde contatos telepáticos eram o modo mais freqüente de comunicação. quando conversavam em voz alta, era simplesmente para exercitar as cordas vocais; e, a mando da curiosidade, para ter certeza de que suas vozes não tinham perdido aquele timbre levemente vigoroso que agradava ao telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- pois é, e eu fico com a impressão de que perderia o entendimento caso você tentasse me explicar.&lt;br /&gt;-- amar alguém pra quem é necessário ficar longe de você implica colaborar na manutenção dessa distância toda. que amor esquisito esse que não reúne, e que parece florescer na repulsão.&lt;br /&gt;-- sacrifícios, né?&lt;br /&gt;-- feitos sem muito pestanejar. que seja feliz -- essa felicidade me arranja um sorriso, que eu tatuo na cara por empréstimo até conseguir um que seja plenamente meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e mostrou o presente dessa tal felicidade. fato é que o sorriso parecia mesmo estrangeiro, mas um que estava em processo de adaptação crescente na nova terra. as covinhas nos cantos dos lábios surgiam mais naturais. era embebido na certeza recuperada desse amor inequívoco que ele dissipava a noite e concebia o amanhecer naquela mesma estrada. diariamente, repetidas vezes, ele percorria o mesmo trajeto e chegava à mesma conclusão: não são energéticos, mas sim o amor, que dá asas. então o calor lhe tomava conta das bochechas, e sua aparência fantasmagórica dava lugar ao cara de sempre, o eterno desafiador de definições simples.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- você ficou bronzeado repentinamente! haha, cê é uma figura.&lt;br /&gt;-- haha, milagres sendo operados, você vê. eu amo, simplesmente. um dia vai dar certo. se o tempo é uma embarcação, aprender a amar pode muito bem ser a chave pra se voltar ao mar.&lt;br /&gt;-- e agora deu pra evocar os poderes mágicos de interpol, é?&lt;br /&gt;-- renato russo que me desculpe, mas sou bem mais o paul banks.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-737996818675491778?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/737996818675491778/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=737996818675491778&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/737996818675491778'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/737996818675491778'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2008/03/interpol-public-pervert.html' title='interpol - &apos;public pervert&apos;'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-8013710116274845634</id><published>2008-01-17T22:47:00.000-02:00</published><updated>2008-01-17T22:50:50.957-02:00</updated><title type='text'>radiohead - 'lozenge of love'</title><content type='html'>-- branco-no-branco: é tão bonito, né? você vê como essa porção esbranquiçada do céu realça ainda mais os contornos e a maciez dessa nuvem que tá na frente?&lt;br /&gt;-- eu não vejo assim tão bem..&lt;br /&gt;-- se esforça, presta atanção. esse alto-relevo natural faz a nuvenzinha ficar mais vistosa, mais imponente, até mais rápida. eu garanto que ela, tão pequena assim, não teria o mesmo impacto se vagasse sozinha pelo céu.&lt;br /&gt;-- eu não vejo ainda, mas até entendo o raciocínio. o que não sei é onde você quer exatamente chegar com essa sua exposição sobre os truques visuais da sobreposição de cores.&lt;br /&gt;-- todo mundo gosta de contrastes extremos. passar horas tentando misturar água e óleo. construir paradoxos, comunicar-se usando oxímoros bem sacados. mentir para acentuar o valor da verdade. branco-no-preto.&lt;br /&gt;-- branco-no-preto?&lt;br /&gt;-- é. bem típico, né? e você é igualzinho, não é diferente como você diz ser, não. é bem branco-no-preto.&lt;br /&gt;-- como assim?&lt;br /&gt;-- lembra quando no começo você disse que seria, assim, sincero? sem omitir, sem dramatizar? pois bem, negligência e teatro são bem branco-no-preto.&lt;br /&gt;-- ei, mas eu não sou de fazer isso.&lt;br /&gt;-- ah, então eu queria saber. mesmo. ontem, quando você chegou tarde em casa, e disse que tinha ficado fazendo hora-extra no trabalho pra termos mais tempo juntos no fim de semana. naquela maleta que você trouxe tinha um uniforme sujo de barro e cheirando a cerveja e suor.&lt;br /&gt;-- pera aí..&lt;br /&gt;-- e semana passada, quando brigamos por causa de um plantão que você faria numa noite em que jantaríamos com nossos pais; e você fez aquela cena toda, dizendo que o plantão era pra garantir um dinheiro extra pra uma viagem no fim do mês?&lt;br /&gt;-- mas e não viajamos?&lt;br /&gt;-- é, só que o tal "plantão" foi mais pra fugir da raia do que pra propiciar uns dias paradisíacos, né? eu bem sei do jogo de cartas desse dia..&lt;br /&gt;-- então você fica me espionando agora, é? tá desconfiando de mim, acha que tô te traindo?&lt;br /&gt;-- não, não acho. nunca disse isso, aliás. parece que você não me compreendeu.&lt;br /&gt;-- pois me explica, então.&lt;br /&gt;-- você é todo branco-no-preto. mentirinhas leves, né? eu sei que o fim disso tudo é verdade, que você me ama, mas sua maneira de mostrar o "branco" da verdade é intensificando-o por meio de um "preto". diz que vai ficar trabalhando, porque "é muito mais digno do que deixar a mulher em casa pra jogar bola". ah, mas eu ficaria tão mais satisfeita se soubesse do seu futebol, em vez de você precisar dissimular, fazer parecer outra coisa..&lt;br /&gt;-- mas.. ah, não sei..&lt;br /&gt;-- ..o que se passou pela sua cabeça? pois nem eu. se você falta com a sinceridade com relação a um simples jogo de futebol, se não gosta de me contar que não quer um jantar.. quem dirá com outras coisas mais graves. contrastes assim não são bonitos -- eles só inspiram desconfiança.&lt;br /&gt;-- branco-no-preto..&lt;br /&gt;-- pois é. eu só queria dizer que não acho que você está me traindo. eu sei que você não está sendo sincero comigo. e, convenhamos, será que tem coisa pior?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-8013710116274845634?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/8013710116274845634/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=8013710116274845634&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/8013710116274845634'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/8013710116274845634'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2008/01/radiohead-lozenge-of-love.html' title='radiohead - &apos;lozenge of love&apos;'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-1610993120834975974</id><published>2007-09-19T21:59:00.000-03:00</published><updated>2007-09-20T02:09:28.710-03:00</updated><title type='text'>the smashing pumpkins - 'by starlight'</title><content type='html'>fazia algum tempo, talvez tanto que ele nem se lembrava ao certo quanto, realmente. cinco, seis anos. dá para se fazer muita coisa em um período composto de tantos dias assim, não? ter alguns filhos, viajar para vários lugares, construir uma carreira profissional sólida, abandonar um curso de universidade em favor de uma vida nômade e despretenciosamente inesperada. muitas idas ao mercado, algumas delas de olhos fechados, segurando as mãos de alguém que nunca se materializou, mas sempre esteve ali. sempre; até agora, inclusive, depois desses tantos cinco ou seis anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aquela última chamada telefônica, ligação para celular jamais atendida, ficou ressonando na memória. um toque interminável, que assumiu diversas formas ao longo dos anos: uma valsinha fosca; um brega pegajoso e arruinado; uma colagem versátil de sigur rós com belle and sebastian; um grunhido anasalado entoando que não estava nem aí, que não sabia, como todo mundo, onde exatamente seus ossos repousariam. era como se o telefone nunca tivesse sido recolocado no gancho -- e até hoje ele esperava ouvir o clique do outro lado da linha, a interrupção do sinal de chamada, o suspiro sutil que precede a voz humanizando a situação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;essa prolongação que borrava a linha entre real e imaginário pregava-lhe algumas peças, principalmente durante a noite, entre o lúcido e o sonho, quando podia sentir que alguém do outro lado finalmente pegava o aparelho para responder aquele telefonema interminavelmente insistente. quantas vezes não acordara estranhamente narcotizado, tateando cegamente em busca do celular, e grudando-o ao pé do ouvido, como se finalmente uma conexão firme tivesse sido estabelecida, e fosse uma questão de tempo alguém do outro lado responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;todo esse tempo mais tarde -- essas estações todas cada vez mais imprevisíveis por conta das mudanças climáticas, esse curso universitário que chegou feito bola-e-corrente para limitar os movimentos e fazer arrastar um peso que só começou a se desfazer no fim da jornada --, quando ele ficou frente-a-frente com o telefone numa manhã gelada de julho, fez com que ele ponderasse a respeito do que estava prestes a fazer. e o que aconteceria se o telefone tocasse para não ser atendido novamente? que tipo de choque psicológico isso causaria? o que seria dele, da sua realidade, ao ouvir tocar novamente de forma intermitente aquele mesmo telefone, em circunstâncias tão parecidas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele se fixava em seus planos, no horário meticulosamente agendado. queria finalmenter concretizar a ligação. ansioso, discou os números com cerca de dois minutos de antecedência para o fim do prazo estabelecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e talvez ela estivesse ao lado do telefone, só esperando. ou então foi mera coincidência -- talvez ela estivesse passando para ir tomar um copo de água. certo é que mal-e-mal tocou o telefone, o tão esperado clique interrompeu a sequência monótona de ruídos, e um suspiro meigo antecipou uma voz doce, levemente afetava por um sotaque típico, melodioso, bonito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a conversa foi só deles, pontuada por um resgate de todo aquele período, e do que veio depois. transcorreu naturalmente, tudo muito amigável, feliz, sorridente, encantador. ao desligarem o telefone, ele se sentiu flutuar, depois deslizar da cadeira e lentamente escorrer para o chão. era tê-la de novo em sua vida o que o fazia mais vivo, e não titubeou quando pegou o telefone mais uma vez para comunicar algo que havia deixado escapar, tamanha havia sido a quantidade de informação da primeira conversa:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- alô?&lt;br /&gt;-- ah, eu só queria dizer que tô realmente feliz.&lt;br /&gt;-- é, eu também!&lt;br /&gt;-- e olha, aquela música, enfim. você sabe. ela ainda é sua. continua sendo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-1610993120834975974?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/1610993120834975974/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=1610993120834975974&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/1610993120834975974'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/1610993120834975974'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2007/09/smashing-pumpkins-by-starlight.html' title='the smashing pumpkins - &apos;by starlight&apos;'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-5013128937076859737</id><published>2007-08-22T12:40:00.001-03:00</published><updated>2007-08-22T13:37:40.861-03:00</updated><title type='text'>iliketrains - 'come over'</title><content type='html'>-- e o que se faz quando se quer estar em todos os lugares do mundo, exceto onde se está fisicamente?&lt;br /&gt;-- fecha os olhos e sonha.&lt;br /&gt;-- e quando o repertório de fugas instantâneas parece ter esgotado?&lt;br /&gt;-- imaginação é solo fértil. só sulcar, semear e aguardar três minutos debaixo de sol. nem precisa de água.&lt;br /&gt;-- mas e se a terra estiver muito batida, consistência de areia de praia, como vou sulcar e deixar demarcado?&lt;br /&gt;-- juntos a gente dá um jeitinho de cavocar buracos até encontrar terra boa no fundo.&lt;br /&gt;-- juntos, é? então cê pode começar agora. dá um abraço, vai? daqueles bem demorados e firmes.&lt;br /&gt;-- hmm?&lt;br /&gt;-- cá me deixar aconchegar em você uns segundinhos.&lt;br /&gt;-- ah, sim! dizem por aí que é bem mais do que calor que a gente compartilha, né? acho que tem até pesquisa comprovando o efeito terapêutico.&lt;br /&gt;-- pesquisa? efeito terapêutico? você precisa de ciência pra confirmar? deixa eu participar de sua pesquisa de campo então, que tô precisando de carinho.&lt;br /&gt;-- ahaha. vem cá, então, ser a primeira a fornecer dados pra meu estudo. isso, isso. fica assim não, viu? tá se sentindo melhor?&lt;br /&gt;-- tô sim. mas tem uma coisinha só.&lt;br /&gt;-- que seria?&lt;br /&gt;-- nada de sair abraçando e beijando assim outras voluntárias, viu? a única vaga aberta pra coleta de informações pra esse trabalho já tá devidamente preenchida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-5013128937076859737?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/5013128937076859737/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=5013128937076859737&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/5013128937076859737'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/5013128937076859737'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2007/08/iliketrains-come-over.html' title='iliketrains - &apos;come over&apos;'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-2944471355975193114</id><published>2007-08-13T20:43:00.000-03:00</published><updated>2007-08-13T20:53:15.355-03:00</updated><title type='text'>the smiths - there is a light that never goes out</title><content type='html'>quando soube da memória que não tinham por ele, fez o contrário de se desapegar: fincou ainda mais fundo o mastro e hasteou a bandeira que simbolizava seu carinho, para todo mundo ver tremular em vento hostil e quente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em tempos de greve e guerra, tudo o que ele sabia fazer era dinamizar em direção a uma confraternização. era pelos opostos que ele se fazia notar, ainda que por intermédio da desconfiança alheia. afinal, que demonstração gratuita de afeto não é recebida com suspeição?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;então, analisando assim até que se entende; mesmo com os amigos dizendo para ele deixar o tempo correr, a ferida sarar, ele insistia em rodar contra os fusos horários, insistia em desgastar as cicatrizes -- recordar a época, o ardor, buscando enlouquecer os ponteiros, desvirtuar o tecido da realidade. seja regredindo para consertar, seja avançando para retomar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não sei, a impressão que ficava era a de que ele buscava uma manifestação física desse desejo de reconciliação. um fenômeno, um acontecimento sobrenatural que o arrebatasse. uma segunda chance concretizada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pois bem. no dia em que ele sumiu, estávamos tomando um café na varanda. acho que foi a fumaça aromatizada subindo lentamente da xícara. pensando melhor, talvez tenham sido os bolinhos: massa com gosto de baunilha salpicada com quadradinhos de morango. havíamos passado a tarde enlameando com mistura de farinha, leite e ovo as paredes caiadas da cozinha. ao raiar alaranjado do crepúsculo, saímos para provar nossa experiência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;varanda ampla, jardim espaçoso, café fumegante e os bolinhos saltando da bandeja para nossas mãos. conversa vai, conversa vem, ele triscou de leve os dentes no quitute amolecido. estranho como ele revirou os olhos ao sentir um dos moranguinhos. achei que era o azedinho, mas era não. era algo mais. alguma coisa quase que inexprimível. relembrando agora, provavelmente era a conexão tão procurada, a lembrança-chave para provocar a ignição. daí em diante, só descrevendo o evento: ele sorriu, fez um "puf" engraçado e esfumaçou-se. tal qual ninja cuja fuga é acortinada por vapor, ele simplesmente desapareceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu nem contei a ninguém. já me tinham por imaginativo o bastante, nem precisava adicionar à fama. fato é que voltei a vê-lo somente três dias depois, em sua casa mesmo. passara o tempo todo fora -- denunciavam-no os panfletos com promoções de produtos de informática empilhados na entrada da residência, e que ele religiosamente apanhava antes de sua caminhada vespertina. se alguém dera por sua falta, não se manifestou publicamente (saudade de banco cobrando o atraso no pagamento do cartão de crédito através de mensagens deixadas na secretária eletrônica não conta).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; e aquela foto emblemática do estrago em que ele se encontrava, datada de três semanas, em que ele aparecia emburrado, tristonho, em meio aos seus sorridentes amigos de faculdade durante uma excursão, estava inexplicavelmente mudada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu quis perguntar, mas acabei por me contentar com a resposta em formato de semblante de missão cumprida vinda de seu rosto iluminado, exposta quando veio trazendo nossas já famosas xícaras de café: de onde havia surgido no papel, como que pincelado por mágica, aquele sorriso tão radiante?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-2944471355975193114?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/2944471355975193114/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=2944471355975193114&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/2944471355975193114'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/2944471355975193114'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2007/08/smiths-there-is-light-that-never-goes.html' title='the smiths - there is a light that never goes out'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-6628492230013002547</id><published>2007-06-30T09:35:00.000-03:00</published><updated>2007-06-30T10:59:29.751-03:00</updated><title type='text'>arrah and the ferns - 'problems'</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:78%;" &gt;"it went the dull and wicked ordinary way&lt;br /&gt; and now i'm sorry i missed you&lt;br /&gt;   i had a secret meeting in the basement of my brain"&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;(the national - 'secret meeting')&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;-- essa aparência de noite que todo dia tem seria de fato interessante não fosse um porém: não enxergo bem no escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu dizia isso a ela, assim lentamente, destacando cada sílaba com paciência, figurinhas engraçadinhas retratando algum personagem conhecido saídas de um pacote lacrado. deviam ser engraçadinhas, ao menos: ela se ria, assim descaradamente, soprando de volta para mim as sílabas suspensas no ar por uma cola das mais vagabundas. era tão fácil desdizer meus enunciados que, certamente, eu nunca completaria um álbum. provavelmente eles deslizariam pelas páginas e despencariam no chão. auto-colantes uma ova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aliás, do jeito que as coisas andam, se fossem realmente figurinhas meus enunciados pertenceriam a uma coleção dos ursinhos carinhosos. "coisa mais divertida você, com esse seu jeito pra frases que querem filosofar mergulhando de cabeça numa poça", respondia ela, e ria abertamente. eu amarelava um sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tem sido assim, de fato. na verdade, eu só queria fazer perceber meu estado de nervos fraturados, esse pequeno mundo de colapso só meu que vem se agigantando cautelosamente. não tenho essa mania de acertar um assunto nas têmporas com um tacape e puxá-lo cena adentro pelos cabelos. prefiro uma abordagem mais teatral, um toque mais fantasioso, maquiagem leve não para cobrir as imperfeições, mas para realçar as belezas. coisa de quem vive mais dentro de si, eu acho: tanto da melancolia do mundo já é tenebrosamente cru; posso ao menos fazer de mim algo menos visceral quando o assunto é comunicar tristezas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pois quando eu vejo que não dá tão certo, eu penso em mudar. e quando eu não consigo mudar, eu volto a conversar mais comigo mesmo. aí eu chego à conclusão de que, às vezes, não é tão fácil solucionar coisas sem ter como conversar com mais gente do que você mesmo. e então:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- sabe quando você tem a impressão de que o mundo não pára quando você puxa a cordinha justamente porque o motorista é sádico e gosta de ficar circundando a mesma praça só para ver sua cara de enjôo com o movimento e de desespero com a rotina?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;talvez seja meio vazio de significado direto, mas tem toda aquela história da pragmática. eu, particularmente, vejo sentido demais nas coisas; e quando ela me olha sempre rindo, ou quando o pessoal comenta como isso é um jeito tão estiloso de se falar, então eu volto a discutir comigo mesmo, naquele tipo de reunião interna para decidir os rumos da administração da empresa. reunião que sempre demora muito, e que nunca realmente decide. mais toma tempo mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e numa dessas de tomar tempo para confabular intimamente, passou o ônibus varado pelo ponto e eu nem estiquei o braço. perdi o compromisso. toca o celular depois de 20 minutos: ela do outro lado, furiosa com o atraso, cuspindo fogo de fazer esquentar minha orelha. não é pouco o que ela fala antes de eu ganhar a chance de dizer algo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- desculpa.. eu tava em meio a uma reunião pra tentar salvar o empreendimento falido que sou eu mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu pude sentir uma mudança de humor, uma tentativa de abafar uma risada que jorrou jovial e inocente, e palavras perdidas que soaram como "ah, mas você não muda mesmo, né?".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nem eu, muito menos todo mundo, aparentemente. vai ver, é mesmo a mecânica do ordinário que regula nossas engrenagens.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-6628492230013002547?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/6628492230013002547/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=6628492230013002547&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/6628492230013002547'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/6628492230013002547'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2007/06/arrah-and-ferns-problems.html' title='arrah and the ferns - &apos;problems&apos;'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-2060598960674171432</id><published>2007-06-06T10:04:00.000-03:00</published><updated>2007-06-06T11:14:20.553-03:00</updated><title type='text'>the twilight sad - cold days from the birdhouse</title><content type='html'>volta e meia me vem esse frio escalando os ossos, as pequenas picaretas esbucarando a lisa superfície branca, estalando em estocadas precisas, provocando rachaduras que se alastram à velocidade do vento. deve ser daí que provém a fragilidade, o andar manquitolante calcado em incertezas, a vontade de desabar sobre o colchão mais próximo e de se enovelar no cobertor: hibernar, depois avançar o torpor por cima das primaveris chuvas coloridas, então cobrir o calor do verão com a mesma membrana de inércia, por fim soprar as folhas secas do outono usando a respiração pesada do sonho para então voltar a hibernar sem ter saído do estado sonolento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-2060598960674171432?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/2060598960674171432/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=2060598960674171432&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/2060598960674171432'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/2060598960674171432'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2007/06/twilight-sad-cold-days-from-birdhouse.html' title='the twilight sad - cold days from the birdhouse'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-6551870107538020120</id><published>2007-05-25T21:50:00.001-03:00</published><updated>2007-05-25T21:50:47.373-03:00</updated><title type='text'>the eames era - 'listen for the sun'</title><content type='html'>o momento não tinha cor de despedida. aquele azul choroso, metafísico, docemente intransigente que caracterizava os instantes precedentes à separação. de vez em quando ele fechava os olhos, buscando um alento, uma confirmação de que aquilo não tinha cor de despedida -- e, é bem verdade, sobre a brancura antártica gotejava lentamente um laranja tênue, que ia sendo gradualmente sorvido e prosseguia contaminando a imensidão. então ele, de olhos fechados, sorria e se exaltava em leves tremores, e ela observava tudo atentamente. as mãos atadas às dele, ela percebia seu transe, e se perguntava o que seria que o fazia tão feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;num momento como aquele, não parecia muito certo ficar sorrindo de olhos fechados, tão aparentemente à toa. era até grosseiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele fazia isso incidentalmente, e disso ela não sabia. não chegava a ser automático, e também não era controlável. simplesmente acontecia. volta e meia, quando ele fechava os olhos, todo o mundo por detrás das pálpebras ficava branco, imaculado. e logo em seguida pequenas gotas começavam a colorir aquela tundra, e tudo ganhava uma única cor. no princípio, ele achou que isso era assunto de médico; mas por ter tanto medo de jalecos brancos e nojo de ambientes muito limpos, optou por aprender a conviver com isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele olhava só para os olhos dela. ela retribuía a fixação ocular, e para quem passava, pareciam brincar de quem fica mais tempo sem piscar. num dado momento, ele virou o rosto para dar uma informação. apercebeu-se então das vozes esterilizadas emitidas pelo sistema de som; dos carrinhos repletos de malas; do choro da criança que tinha medo de avião. ficou aterrado, e no meio do choque, procurando um alento imediato, uma anestesia, fechou os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;incidental, como havia dito. ele percebera, conforme a prática lhe fora ensinando, que cada cor pertencia a um momento. categorizou as cores: vermelho para assalto; verde para paixão; roxo para catástrofe climática; cinza para comida estragada. era engraçado, ele pensava, porque havia coisas mais importantes e interessantes que seu sistema de cores não detectava: a morte ou a escolha de um bilhete premiado, por exemplo. de qualquer modo, algumas espécies de situação provocavam, de vez em quando, uma reação. de vez em quando: havia momentos em que, por detrás das pálpebras, seu mundo era como o de todo mundo: escuro. ele não sabia quando aconteceria; só sabia que, quando acontecia, era infalível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o que ela fazia naquele ponto era suportar sua vontade de esbofetear o rapaz com bolsadas bem dadas na altura do queixo. era imprescindível o que ela queria dizer, e seu semblante consternado e tenso transparecia muito sofrimento. lá vinha a presença espectral anunciar o pouso de tal avião através do alto-falante, e ela percebeu que já era quase hora de ir. cheia de impaciência, mordida pela pulguinha da angústia, beliscou-o sem dó.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de todas as cores, a que ele mais temia era o amarelo, cegante, corrosivo: a cor da quebra de confiança. o azul não ficava tão atrás -- um honroso segundo lugar na escala de pânico para o azul choroso e metafísico da despedida. entretanto, aquele laranja mortiço do saguão de espera no aeroporto tinha qualquer coisa de estranho. aquele laranja, se bem que não tão alaranjado, não era azul. tinha tudo para ser, era uma cena típica de azul, e, no entanto era laranja. e ele nunca tinha visto aquela nuance antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele tornou à terra. estava satisfeito consigo mesmo, pois a cor do momento não era azul, e a infalibilidade das suas percepções cromáticas garantiam a permanência. nem sentiu o inchaço no local do apertão. olhou-a leve, e ela se sentiu duplamente pesada. respirou fundo e derramou uma lágrima. uma única lágrima, que brilhou um alaranjado desmaiado, refletindo a luz de um letreiro próximo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ela precisou visitar-lhe o pé do ouvido, pois sua voz acorrentara-se a uma das pedras que lhe oprimiam o peito. ele, por sua vez, enquanto ela falava, nem precisou mais fechar os olhos para visitar o laranja esmaecido: da lágrima que se estilhaçara pingaram milhões de partículas que salpicaram seu campo de visão. logo em seguida, o mundo era laranja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o que ela suspirou, ele apreendeu. ao fim, mais uma vez se entreolharam vorazmente, mas sem mais ver em um a alma do outro. nem ver também a alma a quem os olhos alheios pertenciam. sem enxergar alma nenhuma se entreolharam: os reflexos nas janelas fechadas revelavam rostos transmutados, desconhecidos de si mesmos. as mãos atadas, há muito adormecidas, fizeram questão de se repelir. como se magicamente afetados por um desapego irreprimível, foram os dois cada um para seu lado: ela, para o portão de embarque; ele, para a saída do saguão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;durante essa última caminhada em que os dois estiveram um no campo de visão do outro, ela não virou a cabeça uma única vez na direção dele. estava tomada por um louco desespero de deixar tudo, simplesmente se permitir dissolver nos braços dele, como na última noite, nos goles sôfregos de vinho tinto e nas mordidas leves no pescoço acompanhando as lentas imagens de um filme romântico. preferiu seguir em frente e conservar a sanidade. ele, por sua vez, embebido no frescor da notícia trágica, lançou-lhe um olhar desafiador e ao mesmo tempo implorativo, que a convocava a se entregar: um convite à libertação. acompanhou-a com os olhos até que ela se misturasse à massa, e percebeu com desgosto a recusa inexorável feita a seu convite. desenhou então, no ar, um adeus meio ressentido, meio abnegado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ele conheceu ali, naquele saguão refrigerado, o significado daquela cor inusitada: laranja desaquecido, laranja cor de deserto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-6551870107538020120?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/6551870107538020120/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=6551870107538020120&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/6551870107538020120'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/6551870107538020120'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2007/05/eames-era-listen-for-sun_25.html' title='the eames era - &apos;listen for the sun&apos;'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-1275767730620956603</id><published>2007-04-05T18:50:00.000-03:00</published><updated>2007-04-05T19:24:13.122-03:00</updated><title type='text'>hello seahorse! - 'atardecer en parapent'</title><content type='html'>num daqueles cruzamentos movimentados de trânsito vagaroso durante a hora de saída do trabalho, o sinal vermelho abriu caminho para os pedestres. meio caminho andado na faixa de segurança, e ele, sempre de cabeça baixa, como lhe é costumeiro, passa batendo numa sacola gelada de supermercado e roçando o tecido liso da saia florida que cobria as pernas de uma moça. moça qualquer, pensou ele, e ainda mal-educada: nem olha por onde anda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mas o passo seguinte lhe provocou um calafrio no calcanhar do pé direito, uma sensação de desequilíbrio, de estar pisando em gelatina. girou de leve a cabeça. viu um pote de sorvete dentro do plástico que pendia das mãos daquele corpo. alinhou os olhos com o horizonte. e então perdeu o mundo de vista em meio àquela deslumbrante coleção de cachos castanhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;nem a algazarra das buzinas e o ruidoso arranque de um motorista mais apressado o fez perceber que se tratava da sua vida em jogo, ali no meio do asfalto; o sinal desavermelhando e ele maquinalmente se arrastando em direção à calçada oposta. talvez não fosse do seu feitio acabar enfeitiçado pelo balançar solto de uma cabeleira, mas havia de abrir exceção. aquela moça tinha qualquer coisa de.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vibrante. a forma como ela acelerou as passadas e chegou sã e salva ao outro lado, a tempo de lançar ao ar alguns impropérios elegantes, lançá-los mesmo, sem destinatário. e aquela morena vistosa parou para ajeitar uma das sandálias; enquanto metade dele se endereçava ainda ao outro lado da rua, a outra parte se esforçava por chamar a atenção da moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não deu. salvou-se a integridade física, mas ele, a sua imagem acabou engolida pela monstruosidade que era aquele ônibus de viagem de dois andares, que veio desembarcar passageiros como de costume, mas que curiosamente estacionou uns cem metros depois da parada original. e ela, os seus contornos harmoniosos nem perceberam os acenos desesperados por detrás da lataria, e foram sobressair-se em outra vizinhança; ali ela só tinha ido em busca de sorvete de menta-achocolatada para seu irmãozinho doente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;embora ele tenha sempre passado a cruzar de cabeça erguida aquele entroncamento, nunca mais a viu. exceto nos corriqueiros sonhos que se recusavam a deixar morrer o frustrado encontro fortuito. ou nas raspas de chocolate que adocicavam o frescor da menta de seu novo sabor favorito de sorvete.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-1275767730620956603?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/1275767730620956603/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=1275767730620956603&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/1275767730620956603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/1275767730620956603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2007/04/hello-seahorse-atardecer-en-parapent.html' title='hello seahorse! - &apos;atardecer en parapent&apos;'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-1457214221170246497</id><published>2007-04-01T05:56:00.000-03:00</published><updated>2007-04-01T14:32:34.548-03:00</updated><title type='text'>helen stellar - 'weightless'</title><content type='html'>-- um bom dia para se voltar a escrever. assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e bateu a parte inferior do lápis por três vezes na escrivaninha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;-- porque eu não consigo escrever com caneta. sempre vou esfregando a mão por cima da tinta; acabo ficando com a mão suja e com a página estragada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-1457214221170246497?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/1457214221170246497/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=1457214221170246497&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/1457214221170246497'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/1457214221170246497'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2007/04/hellen-stellar-weightless.html' title='helen stellar - &apos;weightless&apos;'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-2424715169006823197</id><published>2007-02-11T22:18:00.001-02:00</published><updated>2011-11-20T13:59:05.145-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>-- enterramos aqui então, debaixo dessa árvore.&lt;br /&gt;-- e você pretende voltar até aqui um dia? assim..&lt;br /&gt;-- pra ser sincero contigo.. não. acho que não.&lt;br /&gt;-- é. eu imaginava.&lt;br /&gt;-- desapontada?&lt;br /&gt;-- não, não. longe de mim. mais resignada mesmo. é engraçado.&lt;br /&gt;-- o quê?&lt;br /&gt;-- isso. de ser sincero. engraçado como todas as tuas verdades não andam de mãos dadas com as minhas.&lt;br /&gt;-- você sabe, me conhece. nunca fui de falar coisas apenas porque os outros as querem ouvir.&lt;br /&gt;-- pois é. e eu, eu nunca fui de gostar de escutar as pessoas dizerem o que eu gostaria de ouvir só por dizerem, assim.&lt;br /&gt;-- isso pode gerar situações desconfortáveis, não?&lt;br /&gt;-- pois é.&lt;br /&gt;-- como essa agora?&lt;br /&gt;-- basicamente. embora você não tenha falado o que eu gostaria de ter ouvido.&lt;br /&gt;-- bem verdade. mesmo desse jeito, sinto tê-la desapontado.&lt;br /&gt;-- você fala como isso se tratasse de uma de suas apólices de seguros.&lt;br /&gt;-- como assim?&lt;br /&gt;-- exatamente assim. assim mesmo. escuta, lobo mau. por que tantas perguntas?&lt;br /&gt;-- é pra te entender melhor. tão enigmática, você e suas alusões e frases entrecortadas.&lt;br /&gt;-- eu, sinuosa como uma interrogação. você, retilíneo como uma folha de papel em branco.&lt;br /&gt;-- mas pode ser colorido, né? laranja, e sem estampas.&lt;br /&gt;-- engraçadinho. vamos voltar pra casa? está ficando frio. e preciso fazer as malas.&lt;br /&gt;-- enterramos aqui então. tá decidido. mas e depois?&lt;br /&gt;-- vamos desenhar um mapa, anexá-lo a umas anotações misteriosas, colocar o conjunto num envelope e por fim afixá-lo.. quem sabe na parte de trás da moldura daquele quadro esquisito que sempre esteve na nossa sala.&lt;br /&gt;-- boa idéia! vai dar uma ótima caça-ao-tesouro para os filhos da família que for morar ali no futuro.&lt;br /&gt;-- é. nossas lembranças reduzidas a um jogo infantil. não era bem essa a idéia. mas, enfim.&lt;br /&gt;-- mas..?&lt;br /&gt;-- faz sentido. talvez só tenhamos brincado de casinha durante todo esse tempo mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;r.e.m. - 'e-bow the letter'&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-2424715169006823197?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/2424715169006823197/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=2424715169006823197&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/2424715169006823197'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/2424715169006823197'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2007/02/11-de-fevereiro-de-2007.html' title=''/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-116636436215232932</id><published>2006-12-17T11:14:00.001-02:00</published><updated>2011-11-20T14:00:47.864-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>hoje é um daqueles dias em que se é humanamente impossível permanecer parado. tudo muito quente, você sente o ar te abraçando e não querendo largar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;vou caminhar mais um pouco pelo corredor e volto logo mais.&lt;br /&gt;andrew bird - 'dark matter'&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-116636436215232932?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/116636436215232932/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=116636436215232932&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/116636436215232932'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/116636436215232932'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/12/17-de-dezembro-de-2006.html' title=''/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-116519679949393305</id><published>2006-12-03T23:45:00.001-02:00</published><updated>2011-11-20T14:00:54.652-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>não era sempre que olhava pela janela e buscava lá fora um dente-de-leão. geralmente era coisa mais abstrata, por que não mais inexistente, como da vez em que quis vislumbrar um disco voador e passou horas documentando a ocorrência de luzes esquisitas, que piscavam erraticamente e pareciam ziguezaguear na baixa atmosfera. ou então quando teve vontade de capturar um floco de neve com um tubo de ensaio; tinha em mente experiências mirabolantes envolvendo bonecos-de-neve robotizados e movidos por alquimia; e esticou o bracinho mirrado pela janela, galhinho esbranquiçado que ficou torrando ao sol enquanto as horas passavam e o outro braço dedicava-se a anotar constatações até meio óbvias a respeito do clima sub-tropical litorâneo da cidade. ou qualquer que seja o nome atribuído a esse pandemônio tão peculiar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"diabos! lugarzinho temperamental, não nega essa cara sorridente. mais um dia sem neve."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a caligrafia era assim, exótica, rabiscos afetados por uma tendência ao exagero e por um maneirismo de escrever perpendicularmente às linhas azuis. costumava também ser tremendamente indulgente -- parágrafos exuberantes, insinuavam-se com linguagem venenosa e intenção bifurcada, rastejando através das páginas, sorrateiramente subindo pelos braços do leitor, sem cheiro ou fricção, quase que flutuando até aplicar constrição gradativa no pescoço: quando se percebia, a cabeça já estava entre os joelhos, boca aberta engolindo todo ar do mundo de um só gole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;não era sempre que se conseguia pegar aquele caderno; da mesma forma, não era sempre que havia algo interessante para se ler. os melhores dias eram justamente dias como o em questão, quando se apercebia do mundo de verdade do qual era parte. para usar de sinceridade, eram poucos. não se deve subestimar a corrosão provocada por um confinamento de prolongação indefinida, e mais ainda, o poder dos mecanismos de defesa, de auto-preservação contra essa corrosão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dizer que há beleza na tragédia é subtrair-lhe o elemento que lhe qualifica como tal: o desastre. aquilo que é trágico não pode ser belo, verdadeiramente belo, aos olhos de quem se considera humano se o desastre toma parte na equação. veja bem, fitar seus olhos quando um dado acontecimento rompe a película que guarda seu mundo particular e joga sua consciência no plano compartilhado por nós, fitar seus olhos provoca uma reação indescritível. é ver todo entusiasmo convergindo para dois únicos pontos. contagiar-se com a excitação proporcionada por algo que seria tão mundano, visto com olhos cansados pelo cotidiano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;só esses dias de brilho mais intenso do que poderia ser fazem atenuar a tragédia inerente a se ver um corpo tão jovem preso a uma cama e uma mente tão promissora fugindo da própria capacidade. em meio a túrgidas anotações sobre banalidades e rompantes insanos com direito a obscenidades desmedidas, surgem floreios fantásticos que indicam uma genialidade fora do comum, a escrita-serpente que de assalto realiza o bote certeiro e com sua toxina inebria os músculos e intensifica os sentidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e pensar que antes vivia a se queixar de sua alegada mediocridade, bicho de estimação que ferozmente mantinha sua habilidade em cativeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;agora vem o dente-de-leão, entrando pela janela e pousando-lhe no ombro, de leve. quais serão as palavras encantadas que chegam amarradas em suas cerdas dessa vez?&lt;br /&gt;ramona cordova - 'heavy on my head'&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-116519679949393305?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/116519679949393305/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=116519679949393305&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/116519679949393305'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/116519679949393305'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/12/03-de-dezembro-de-2006.html' title=''/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-116471876975492219</id><published>2006-11-28T10:53:00.001-02:00</published><updated>2011-11-20T14:00:59.281-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>"sabe, não tenho tanto a dizer quanto achava que tinha."&lt;br /&gt;"e ainda assim você parece falar demais."&lt;br /&gt;the walkmen - 'rue the day'&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-116471876975492219?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/116471876975492219/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=116471876975492219&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/116471876975492219'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/116471876975492219'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/11/28-de-novembro-de-2006.html' title=''/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-116275184362392296</id><published>2006-11-05T16:37:00.001-02:00</published><updated>2011-11-20T14:01:06.133-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>e depois de tantas palavras sem pai nem mãe, de tantas sentenças sem pé nem cabeça, depois de considerar a possibilidade de ser um caso perdido, eis que no meio de monólogos órfãos e amputados surge talvez uma segunda voz disposta a dialogar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;talvez eu achasse que as coisas fossem ganhar muito mais sentido, mas a verdade é que parece que o sentido é inversamente proporcional à satisfação. ou mesmo à felicidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sendo coerente com essa descoberta mirabolante, acho que procurar ser são através da loucura não é de todo um disparate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e toda essa busca pela retidão que até então vinha sendo desempenhada inverte-se. enfim, quando se pára para refletir, as coisas mais sensacionais da vida realmente não podem ser explicadas racionalmente de uma forma convincente, ou que faça jus a tudo que elas provocam, não é?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;melhor então seria, seguindo esse caminho, não valorizar tanto os porquês, ou no mínimo valorizá-los menos do que os sentimentos em questão. bem menos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"e então, o quê que cê acha..?"&lt;br /&gt;"aplicável. mas não renderia uma tese. de jeito algum. um ensaio, provavelmente. uma dissertação quem sabe, mas isso com muita boa-vontade."&lt;br /&gt;"gosto da tua sinceridade. não vou muito com a cara é dessa tua maneira de pensar tudo em termos acadêmicos. eu pedi uma opinião sentimental, não uma análise qualificatória."&lt;br /&gt;"então você me considera um robô, né?"&lt;br /&gt;"você e sua mania de su..."&lt;br /&gt;"antes um robô bem-sucedido do que um escritor frustrado."&lt;br /&gt;"antes um autor desconhecido do que uma pesquisadora descerebrada."&lt;br /&gt;(um breve silêncio contendo uma mais breve troca de sorrisos)&lt;br /&gt;"e nos amamos tanto, no fim das contas. vai dizer que faz sentido?"&lt;br /&gt;"quer saber? eu acho que com alguns aprimoramentos eu posso aproveitar e transformar aquilo ali numa dissertação."&lt;br /&gt;"e todos saímos felizes, sem frustração ou robótica."&lt;br /&gt;"mas é claro que teu nome sairia numa nota-de-rodapé feita para não ser vista a olho nu." (um sorrisinho malicioso indicando provocação)&lt;br /&gt;"eu preferiria assim. deixo o sucesso acadêmico para quem se satisfaz com um ambiente tão infrutífero." (devolve o sorrisinho)&lt;br /&gt;"e nos amamos tanto, né? não tem como explicar."&lt;br /&gt;"é, realmente não faz o menor sentido. exatamente como tem de ser, eu acredito."&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-116275184362392296?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/116275184362392296/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=116275184362392296&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/116275184362392296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/116275184362392296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/11/05-de-novembro-de-2006.html' title=''/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-115818502176464058</id><published>2006-09-13T18:32:00.001-03:00</published><updated>2011-11-20T14:01:13.268-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>eu tenho esse cansaço, sabe? essa vontade estranha de ficar vendo o mundo a partir da janela do meu quarto. essa ânsia por músculos de concreto, por articulações enferrujadas, por uma fatia de bolo de melatonina. uma rede, não um carro. um esconderijo, nunca holofotes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;toda essa pressa, todo esse avanço, e eu meio que parado, de futuro encostado contra a parede. não sei se tenho exatamente receio disso em que pareço estar me tornando -- até porque desconheço o que seria. aliás, talvez seja essa ignorância que me empurra pra frente e não me deixa tomar uma atitude diferente. vai ver, o que está por vir vem para ser melhor, então.. deixa chegar?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-115818502176464058?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/115818502176464058/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=115818502176464058&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/115818502176464058'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/115818502176464058'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/09/13-de-setembro-de-2006.html' title=''/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-115629021952748730</id><published>2006-08-22T20:14:00.000-03:00</published><updated>2006-08-22T20:43:39.576-03:00</updated><title type='text'>22 de agosto de 2006</title><content type='html'>"e você sabe, tudo que eu venha a te dizer vai sair pelos meus lábios da forma mais errada possível."&lt;br /&gt;"ou eu mesmo distorcerei o sentido de cada frase tua, para melhor encaixar a inferência resultante no meu plano de rejeição. não é?"&lt;br /&gt;"não é. eu ainda acho que você deveria mais prestigiar a substância. em detrimento do estilo, eu digo. essas tuas demonstrações de perícia no manejo da língua me afetam como calculadas, erguidas a partir de uma planta arquitetônica cujo projeto é exuberante demais para resistir ao próprio peso."&lt;br /&gt;"tal qual a era vitoriana, o contemporâneo prima pelas e se gaba das aparências. se eu escancarar meu coração com um abridor de latas, estarei sendo grotesco e piegas. se eu embaralhar minhas intenções numa malha verborrágica e labiríntica, certamente que conquistarei. tanto pela maestria quanto pela confusão."&lt;br /&gt;"e pretende pendurar a medalha de campeão do torneio de soletrar na varanda da sua casa, naquele ganchinho para redes?"&lt;br /&gt;"o armador?"&lt;br /&gt;"você e sua mania de ensinar. eu sempre tenho razão. não é?"&lt;br /&gt;"acaba sendo. eu sempre perco a razão quando enveredo pelas tuas florestas."&lt;br /&gt;&lt;p&gt;nouvelle vague - '(this is not) a love song'&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-115629021952748730?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/115629021952748730/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=115629021952748730&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/115629021952748730'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/115629021952748730'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/08/22-de-agosto-de-2006_22.html' title='22 de agosto de 2006'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-115620298825795179</id><published>2006-08-21T18:36:00.000-03:00</published><updated>2006-08-21T21:31:51.933-03:00</updated><title type='text'>21 de agosto de 2006</title><content type='html'>"eu só me apaixono pelo inexplicavelmente inacessível.", disse ele. não era a primeira vez que tocava no assunto, e não seria a última que seu colega responderia com um suspiro prolongado e um desejo secreto de que as freqüentes lamentações abandonassem os lamentos e prestigiassem as ações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;como ainda mandava o costume, nada mais se ouviu depois do suspiro. transbordantes de rotina para saberem minuciosamente os caminhos da discussão, mas não tanto que justificasse uma tentativa de abortar o ritual. assim era a preguiça de ambos. ou medo, talvez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;são dúvidas metafísicas. a realidade, aquela palpável, é bem menos interessante. "eu só me apaixono pelo inexplicavelmente inacessível, claude.", repetiu ele. e a empolgação de claude era perceptível no fato de este ter repetido a frase daquele em sincronia, com movimentos precisos e exagerados dos lábios.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;o local onde se desenrolava a monotonia em questão era pleno antagonista em termos de vivacidade. pessoas indo e vindo, casais abraçados mastigando pipocas cobertas com chocolate, crianças sendo puxadas por seus gigantescos elefantes e suas imensas borboletas preenchidas com gás hélio, um acordeon e &lt;i&gt;la valse d'amélie&lt;/i&gt; embalsamando a tarde ensolarada na mais absoluta harmonia, pétalas sendo arrastadas pelos ventos leves de inverno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;tudo tão perfeitamente romantizado, tudo tão esplendidamente colorido, tudo tão fantasticamente irrelevante. como sempre. olhando ao redor, ele sem cerimônia aponta seu guarda-chuva em direção a uma jovem que reluz e se destaca entre suas cinco companheiras num belo vestido vermelho de decote recatado. "podia ser ela, não? de cabelos esvoaçantes. ela seria uma bela inspiração."; adicionou então, com um ar de enlevo, "e ela, mais à ponta esquerda do banco? ah! não creio ser merecedor de atenção alguma vinda de moças tão distintas. e nem elas me fazem a cabeça, para te ser sincero, claude. você sabe.".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;foi então que puxou de um dos vários bolsos internos de sua casaca desproporcional, onde caberiam uns dois do seu tipo físico e mais uma metade, com um certo espremer de corpos, mas dizíamos que ele enfiou a mão abruptamente num dos bolsos e tirou uma foto. alisou o rosto impresso no papel, papel protegido com todo cuidado, embalado em plástico autocolante e jamais dobrado em toda sua existência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;claude sabia o que fazer. semanas, meses de experiência acumularam-se, e ele ditava para si em sussurros, inconscientemente, o passo-a-passo da operação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"ainda assim, claude. ainda assim eu não tenho vontade, sabe? na verdade, acho que vontade eu até teria, se isso me fosse possibilitado. mas o que acontece é que sentir vai além de ter as coisas como se quer, não é? além do mais, não se controla. mas. é, eu sou feliz, sinto com tudo que sou. e ela também, feliz, é o que importa, poder senti-la feliz. não sei quanto vai durar; pela vida, ao que tudo indica. é, sim, é isso mesmo, incondicional. seja como for."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;terminada a conversa, claude deu-lhe três tapinhas leves nas costas. recebeu em retorno um olhar breve, lacrimoso, mas repleto de sinceridade: se havia coisa outra que ele realmente sabia fazer além de lamentar, essa coisa outra seria demonstrar sinceridade para com as pessoas que ele adora. também aquele olhar não era novo a claude, mas quando este chegava em casa depois de uma tarde assim, não cansava de admitir a si mesmo que aquele olhar sempre tinha um efeito incrível. era nesse ponto que toda rotina se dissolvia, que toda balbúrdia do parque se amplificava a níveis audíveis e se tornava orgânica, que claude reconhecia a irreparável humanidade de seu companheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"ah!, seja como for.", e então guardou a foto. com muito carinho, para não dobrar-lhe as pontas ornamentadas. "eu sei que só se passaram dezoito minutos desde que estamos aqui, mas me pesam como se fossem horas. vamos para outro canto; quem sabe debaixo daquela figueira? hoje eu vencerei a partida de gamão. apostamos aquele banana split caprichado?"&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;no caminho para a figueira, uma trilha de conchinhas de praia se fez no rastro dos passos descontraídos dele, despencando graciosamente dos galhos que prontamente se curvavam após sua travessia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-115620298825795179?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/115620298825795179/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=115620298825795179&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/115620298825795179'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/115620298825795179'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/08/21-de-agosto-de-2006.html' title='21 de agosto de 2006'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-115069710441152070</id><published>2006-06-19T02:40:00.000-03:00</published><updated>2006-06-19T03:05:55.926-03:00</updated><title type='text'>19 de junho de 2006</title><content type='html'>fazia questão de dormir com as cortinas levantadas e a janela aberta até a metade. gostava de perceber a brisa fria da noite contrastando com o calor que sentia por debaixo das cobertas grossas. ficava olhando em direção à noite escura, todas aquelas estrelas, porque o sono vinha de carroça num passo de cortejo imperial, se arrastando por entre estradinhas sinuosas e deixando de lado a idéia de chegar em definitivo, somente enviando mensageiros que por sua vez traziam mensagens que justificavam e pediam desculpas e solicitavam paciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;pouco tempo depois, passava a pensar que não era exatamente o sono que era o lerdo da história. caminhava pela mesma estradinha, ouvidos atentos ao menor sinal de ruído, quando passa zunindo uma carruagem levada por magnânimos cavalos alados, fazendo um rasante de exibição para delírio do povo que se amontoava às margens do caminho de terra batida. saía então correndo atrás dela, gritando "volta aqui, volta aqueeeeee!". a carruagem em disparada, desmontando-se à medida que quebrava a barreira do som, transformando-se num borrão antes de esbarrar na teoria da relatividade e explodir em partículas de poeira cósmica. então só se ouvia a multidão cantando a euforia dessa performance pirotécnica, pedindo bis. eu sentava e me conformava, "outra dessas há de passar, então pulo de supresa, tomo o lugar do cocheiro, domo os cavalos: o sono é meu."&lt;br /&gt;&lt;p&gt;guillemots - 'through the windowpane'&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-115069710441152070?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/115069710441152070/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=115069710441152070&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/115069710441152070'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/115069710441152070'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/06/19-de-junho-de-2006.html' title='19 de junho de 2006'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-114705176395618133</id><published>2006-05-07T20:57:00.000-03:00</published><updated>2006-05-07T22:35:53.753-03:00</updated><title type='text'>07 de maio de 2006</title><content type='html'>naquele sonho, a estrada de terra batida serpenteava graciosamente por entre clareiras na vegetação alta, atravessando planícies para desembocar na beira de um rochedo que se via eternamente atacado por um mar raivoso. durante a viagem toda o grupo veio tocando músicas ao som de um violão e um violino e um xilofone, além do bater de palmas e do batucar nas pernas. durante a viagem toda o sol e a lua dividiram espaço no céu, o mesmo palco para dois astros, um céu de um azul límpido e outro de um negro estrelado no mesmo espaço, a divisão tênue feita numa zona onde dia e noite se mesclavam e se embaralhavam para criar um efeito de crepúsculo perpétuo. durante a viagem toda gaivotas acompanharam o ônibus, e dentes-de-leão adornaram o percurso jogando pétalas para cima, numa revoada esplêndida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;naquele sonho, marshmallows assavam sobre um fogo que também aquecia, porque o vento que vinha do horizonte era gelado. fogo e abraços, abraços e sorrisos com piadas e histórias e conversas e mais músicas. e vagalumes que iluminavam a parte escura do céu enquanto beija-flores flutuavam por sobre imensos ajuntamentos de flores sob a parte clara. e o grupo exatamente no meio, debaixo do espelho de crepúsculo, vivendo toda uma euforia enquanto o mar rugia e se atirava contra as pedras lá embaixo -- tanta era a violência que gotículas de água chegavam a molhar de leve parte do topo da encosta que, sem brincadeira, ficava a uns quinze metros acima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;naquele sonho, as férias nunca acabavam. e antes de entrarmos no ônibus para vivenciar o fantástico, eu chegava de uma viagem de alguns meses, na qual vim pedalando de um extremo a outro, carregando uma câmera pendurada no pescoço e uma mochila recheada de rolos de filme, trazendo dentro de mim uma vontade imensurável de chegar para ficar, nunca mais voltar, enfim, ser estar sentir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-114705176395618133?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/114705176395618133/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=114705176395618133&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/114705176395618133'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/114705176395618133'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/05/07-de-maio-de-2006_07.html' title='07 de maio de 2006'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-114618638534408409</id><published>2006-04-27T22:05:00.000-03:00</published><updated>2006-04-27T22:12:21.380-03:00</updated><title type='text'>27 de abril de 2006</title><content type='html'>era noite, sem horário certo, a lua alta em quarto minguante pingando luz prateada por entre a folhagem densa das árvores que recobriam a alameda que levava até sua casa. esse buquê, eu fiz com flores que colhi ao longo do caminho -- lembro como era divertido quando subíamos em muros só para alcançar aquela flor tão bonita que se pendurava no galho mais inacessível. não sei, tanto quanto não sei o horário, o porquê de eu estar indo, assim, para uma visita. e o que vou dizer quando bater à porta? o que vou dizer se uma dessas frutinhas roxas que balançam ameaçadoramente sobre minha cabeça resolver cair e manchar minha camisa? como vou reagir quando você abrir a porta e dizer alguma coisa? ou pior, quando você abrir a porta e ficar me olhando, meio assustada, eu e um buquê de flores sortidas na mão? e quem sabe uma mancha roxa enorme e em processo de metástase no ombro da camisa?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu sou assim, recipiente de certas paranóias, antro de perguntas que escapam a qualquer espécie de contexto. estou ali, tentando aliviar o constrangimento de não ter uma palavra sequer engatilhada criando mais constrangimentos que me levam a ficar ainda mais tenso. ciclo é vicioso. e eu fico olhando para cima, como que se pedisse encarecidamente às árvores para que não cuspissem em mim aquelas bolotinhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;então foi sem perceber, submerso em hipóteses, que quase bati de frente na porta da tua casa. não fosse eu ter tropeçado no penúltimo degrau da escada e voltado à realidade.. isso ao menos me teria poupado o trabalho de tocar a campainha e ficar naquele instante de total ansiedade, longe demais para se cantar vitória, perto demais para simplesmente desistir e sair correndo pela rua, alucinado. mas antes de pressionar o botãozinho que repousava sobre a língua de um leão, eu ouvi risadas. e música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;caminhando até a janela de cortinas entrefechadas que ficava de frente para a rua eu pude vislumbrar corpos que se movimentavam docemente ao som de algo que eu conhecia. meu coração palpitava de forma tresloucada enquanto eu dedilhava os arquivos de minha memória em busca do nome da banda. percebi os olhos brilhantes, os sorrisos de canto-de-lábios. desviei o olhar, fixei o foco nas paredes, mirei sombras que oscilavam na superfície lisa. e displicentemente passei a correr o olhar das silhuetas dançantes para o chão coberto de pétalas para a luz que tremeluzia mais forte num canto específico da sala (imagino que fossem velas). era um espetáculo, e eu, o solitário expectador, fui cada vez mais percebendo que queria mesmo era o papel de ator principal ao lado da mocinha no palco..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;..e me deixei cair de joelhos na grama molhada pela umidade noturna. arfava, longos haustos em que eu parecia não conseguir preencher os pulmões com ar o bastante. uma dor lancinante me atravessava o corpo, rachava meu coração em três. era suficientemente estranho ser bombardeado com a descoberta do que me levara até a porta da tua casa com aquele buquê de flores, e chegar, na mesma hora, à conclusão de que estava fadado a repetir.. ah, lá vou eu, meu passado, minhas paranóias. não era hora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;levantar foi difícil, escorreguei na grama gelada, quase fiz um estardalhaço desabando por sobre o canteiro montado no parapeito da janela. lá dentro, a música havia parado. evitei de olhar pela abertura na cortina, mas ouvi vozes, alguma coisa sobre 'idioteque' e uma barra de chocolate. fiz meu caminho de volta. peguei o buquê e o fui despedaçando, de leve, pétala por pétala, deixando uma trilha de planos recém-descobertos e tão logo abortados. então me veio o nome da banda daquela música que eu havia reconhecido: kings of convenience. não que eu tenha prestado muita atenção -- o nome veio e foi, de relance, enquanto estava mais preocupado em virar o pescoço e olhar pela última vez para sua casa, a janela da frente irradiando luz de velas e romance de sonhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;aliás, eu nem reparei na hora, mas apesar das minhas súplicas, as árvores da alameda realmente acabaram pintando meu ombro esquerdo de roxo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-114618638534408409?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/114618638534408409/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=114618638534408409&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/114618638534408409'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/114618638534408409'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/04/27-de-abril-de-2006_27.html' title='27 de abril de 2006'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-114614765272287030</id><published>2006-04-27T10:22:00.000-03:00</published><updated>2006-04-27T11:20:52.773-03:00</updated><title type='text'>27 de abril de 2006</title><content type='html'>as silhuetas dançantes na parede preludiavam uma noite de encantos. ao tremor da luz de velas, o frio das noites secas do outono estalando nas folhas que farfalhavam ao luar, braços enroscados nos corpos unidos por um movimento levemente desajeitado de pernas. e todo meu cuidado para não sair pisando nos teus pés ou me desequilibrando quando, por brincadeira, tentávamos um passo mais ousado, mais técnico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sorriso de criança e uma leveza fascinante. e eu, que nunca me imaginava assim, girava, e ficava encantando quando você se desvencilhava de mim para fazer alguma coisa que só você conseguia, com aquela sua inconfundível graça. ou começava a rir quando tentava imitar e saía cambaleando pela sala, só pra cair confortavelmente por cima do sofá ao fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as pétalas espalhadas pelo chão, que eu cuidadosamente colhi e coloquei nos bolsos ao longo do meu caminho de volta do estágio na escola de inglês; o aparelho de som ligado num volume mínimo -- só pra servir de acompanhamento, de definidor de coreografia -- tocava aquela coletânea de músicas legais que tínhamos preparado juntos quando, faz uns bons anos, nos encontramos para estudar física (você sempre foi boa demais com isso) mas acabamos conversando sobre como a música era importante pra gente. e se era noite antes, agora começava a madrugada, a lua em quarto minguante brilhava em prata, as velas derretiam lentamente sobre os pratos de cristal, as chamas serpenteavam nos pavios e faziam ondular as silhuetas dançantes na parede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ah, quando o cd acabou, e paramos pra que você fosse tirá-lo do aparelho e colocar radiohead ("em 'idioteque', quem melhor imitar o thom ganha uma barra de chocolate, combinado?"), não pude deixar de imaginar que não havia lugar melhor para se estar. &lt;em&gt;i'd rather dance with you&lt;/em&gt;, dizia a última música do cd que terminou, mas eu sabia que realmente gostaria de fazer e compartilhar tudo contigo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-114614765272287030?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/114614765272287030/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=114614765272287030&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/114614765272287030'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/114614765272287030'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/04/27-de-abril-de-2006.html' title='27 de abril de 2006'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-114375941835401841</id><published>2006-03-30T19:44:00.000-03:00</published><updated>2006-03-30T19:56:58.366-03:00</updated><title type='text'>30 de março de 2006</title><content type='html'>desde que o frio chegou, eu toda tarde vou procurar o assento mais iluminado no parque para sentar ao livre e ler um bocado. o vento vem sendo cordial, soprando de leve, então eu consigo ficar por lá sem aquele probleminha de ter o vento virando as páginas do livro pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;em compensação, teve uma terça aí em que eu precisei sair de casa carregando pedras nos bolsos, sob pena de, caso não o fizesse, sair voando pela cidade. o voar realmente não seria mal, posto que eu fosse capaz de controlar a direção para a qual eu gostaria de ir. o problema seria chegar ao chão são e salvo, evitando pousos de emergência e afins.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;se de agora em diante é só alegria, com o frio pouco a pouco tomando conta, eu realmente não sei. mas vou aproveitar, lendo garcía márquez enquanto o sol se põe ao fundo, tomando um chocolate quente gostoso e comendo pão de queijo enquanto escuto smoosh, assistindo a &lt;em&gt;brilho eterno de uma mente sem lembranças&lt;/em&gt; pela trocentésima vez debaixo das cobertas quentinhas, tentando escrever à medida em que o vento frio entra pela fresta da janela e sussurra, sem parar, "o outono chegou, lalala.".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-114375941835401841?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/114375941835401841/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=114375941835401841&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/114375941835401841'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/114375941835401841'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/2006/03/30-de-maro-de-2006.html' title='30 de março de 2006'/><author><name>lucas hack</name><uri>http://www.blogger.com/profile/13262174480305557906</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-19288008.post-114291821031118891</id><published>2006-03-21T02:16:00.000-03:00</published><updated>2006-03-21T17:38:53.573-03:00</updated><title type='text'>21 de março de 2006</title><content type='html'>sabe, eu fingi rir na hora em que você se levantou pesarosa da cama, arrastando as pantufas de tigre através do piso de madeira, deixando um rastro lustroso como indicação do caminho que seguia, como que se dissesse sem palavras para que eu me levantasse, jogando os lençóis para cima, e corresse para te abraçar e não te permitir ir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu inventei aquela descontração toda quando você arrumou os pratos na mesa e dividiu o queijo naquelas fatias tão finas que só você consegue cortar sem quebrar. eu sorri por cima do ombro enquanto observava os ovos e tomava conta para que não passassem do ponto no cozimento. você colocou sobre a mesa o pão integral, a jarra de suco, algumas frutas, virou-se para afagar nosso gato peludo e gorducho e em nenhum momento levantou o olhar de encontro a meu sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;talvez eu nem fosse realmente eu enquanto tomávamos vagarosamente o café da manhã, o sol entrando calmo através das persianas entreabertas, a brisa sacudindo as folhas daquela árvore do quintal, a grandona, mais velha do que eu e você juntos. aquela que tem o balanço pendurado no galho mais resistente, e em que florescem aquelas pétalas rosadas. lembra, pra comemorar nosso aniversário de relacionamento, eu sempre te faço uma coroa com elas, porque eu me recordo de ter colocado uma dessas florezinhas no teu cabelo no dia de nosso primeiro encontro a sós. dia chuvoso, mãos dadas ao sabor do vento numa corrida sem freios ladeira abaixo em direção ao parque, dança sob os trovões ribombantes, primeiro beijo..&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;..e você me pediu para eu te passar o doce de pêssego, que estava convenientemente posicionado na minha metade da mesa. quando te entreguei o pote, nossos dedos se tocaram.. e você irrompeu num choramingar silencioso. e eu.. eu.. o nó que se fez em minha garganta foi demais para eu suportar, e eu engasguei. larguei o doce sobre a mesa, sujeira sem tamanho, cacos de vidro espalhados por sobre a toalha, e corri para te abraçar. e chorar contigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;agora sim, eu voltava a ser eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e quando, sim!, quando o tráfego de palavras começou a se desengarrafar dentro de mim, você gentilmente se desvencilhou de meu abraço e dirigiu-se de volta ao quarto. fiquei inerte, de joelhos no tapete, sentindo que devia explodir numa torrente de pedidos umedecidos em amor visceral, porque sempre fora assim, mas sabendo que não conseguiria espocar mais do que meros murmúrios roucos. então você voltou a sala, trazendo sua bolsa favorita a tiracolo e puxando com o braço esquerdo o carrinho que apoiava a mala maior, mais pesada, que desde o princípio só havia sido usada quando viajávamos juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ah, eu sei, garoto covarde! só virei o pescoço lentamente, para acompanhar teus passos através da sala e em direção à porta de saída. e você resmungava, faltam vinte minutos, tenho de chegar com ao menos dez de antecedência, dá tempo de comprar os comprimidos anti-enjôo na farmácia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e a uns passos da porta você parou e virou e me encarou. o rosto vermelho, meio inchado, a maquiagem leve já toda borrada. músculos enrijecidos, lábios trêmulos, o cabelo curto e reluzente. eu levantei o braço para acenar. quero dizer, quis levantar! mas ele não me obedeceu. e minha cara patética estatelou-se no chão. eu era um boneco de pano. e sentia que as costuras que uniam meus membros ao torso estavam sendo dolorosamente desfeitas enquanto eu era mantido acordado, justamente para vivenciar toda a experiência. então eu fundi minhas forças e num relance de arrebatamento, um instante fugaz como a passagem de um cometa, eu me senti grande. e berrei por você, quando você já girava a chave do outro lado da porta, me trancando do lado de dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;te chamei pelo apelido que eu dei pra você e que é só nosso, de mais ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;quando você se virou, foi com os olhos transbordando lágrimas, para me dizer naquela característica voz embargada de saudades antecipadas que iria me escrever ao menos uma vez por dia. e eu disse que responderia. e você me pareceu aliviada, quase que esboçando um sorriso. e eu também, também aliviado, também quase sorrindo, soprei um beijo em tua direção, e você fez um biquinho com os lábios para recebê-lo, como nós sempre fizemos. deixou em cima do sofá um bilhete e então você foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;da sacada do segundo andar, acenei uma última vez, e você retribuiu. e entrou no táxi. e desapareceu de vista, apoiada no banco, olhando para mim pelo vidro traseiro, um semblante penetrante que eu sei, posso enxergar em tudo aquilo que me cerca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;assim que você se foi, peguei o bilhete (que continha teu novo endereço), corri para a escrivaninha, apanhei um pedaço de papel e a primeira caneta que me surgiu (era uma cuja tinta era vermelha e parecia purpurinada). comecei então a escrever a tua primeira carta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/19288008-114291821031118891?l=mesasecadeiras.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mesasecadeiras.blogspot.com/feeds/114291821031118891/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=19288008&amp;postID=114291821031118891&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/19288008/posts/default/114291821031118891'/><link rel='self' 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